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domingo, 20 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Exércitos privados mimetizam Forças Armadas dos EUA

FOLHA DE SÃO PAULO

Empresas mercenárias, como a Blackwater, "são capazes de derrubar um pequeno governo", afirma autor americano Jeremy Scahill diz que governos não precisam mais de aliados - basta alugar soldados; empresas agem em impunidade quase total.
ANDREA MURTA - DA REDAÇÃO

A empresa americana Blackwater começou a aparecer para o público em 2004, quando quatro de seus "agentes privados de segurança" - nome eufemístico dado a mercenários modernos - foram mortos, mutilados e queimados por uma multidão furiosa na cidade iraquiana de Fallujah.
Em 2007, novas manchetes dedicadas à Blackwater deram pistas do motivo do ódio de iraquianos a agentes privados: mercenários da empresa mataram 17 civis em Bagdá, em ação, segundo investigação do FBI, absolutamente injustificada.
E os mercenários não estão no Iraque por acaso: são contratados pelos EUA para, principalmente, fazer a segurança de diplomatas e instalações -com ação facilitada pela quase completa impunidade. Para Jeremy Scahill, autor de "Blackwater -A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo" (Companhia das Letras, 2008, R$ 52), os negócios andam tão bem para empresas mercenárias que elas já "são capazes de derrubar um pequeno governo". E atuam, inclusive, na América Latina. Leia a seguir a entrevista que ele concedeu à Folha.

FOLHA - Como a Blackwater reflete a história da guerra moderna?
JEREMY SCAHILL - Ela representa a nova face das guerras travadas pelos EUA. Desde a Segunda Guerra, o governo americano vem privatizando radicalmente suas capacidades militares. No Iraque, há mais agentes privados do que soldados americanos. A Blackwater formou um aparato paralelo das forças de segurança: tem Força Aérea, Marinha, aeroportos. E 90% dos contratos da Blackwater são com o governo americano.
Agora estão trabalhando em sua própria agência de inteligência, uma CIA particular. Veja, atualmente os EUA têm 16 agências governamentais de inteligência, com um orçamento conjunto de entre US$ 40 bilhões e US$ 60 bilhões -o número exato é secreto. 70% desse orçamento é usado para pagar serviços de empresas privadas. Quem garante que uma empresa privada que tem milhões em contratos com o governo americano não vai incluir em relatórios para outros governos informações que são de interesse da Casa Branca?

FOLHA - Qual a relação dos mercenários com a guerra ao terror?
SCAHILL - São parte essencial da guerra ao terror. Um presidente como George W. Bush pode ganhar muito com essas empresas. Ele não precisa mais formar uma coalizão com governos estrangeiros nem lidar com uma opinião pública internacional hostil. Pode pagar por uma coalizão de corporações, que vão contratar mercenários, inclusive em países cujos governos se opõem às guerras.
Isso aconteceu no Chile, que votou contra a invasão do Iraque quando era membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU. O governo Bush, através da Blackwater, enviou para o Iraque centenas de chilenos.
Outra questão é que, como não há contagem oficial das mortes dos agentes privados, isso encobre o custo humano. Os americanos pensam que há 150 mil soldados no Iraque, mas há outros 180 mil mercenários contratados pelo governo. Então na verdade são mais de 330 mil soldados.
E não há leis sendo aplicadas sobre a punição de agentes privados em caso de abuso. Isso é uma ameaça à segurança das pessoas do mundo todo, porque não param de crescer esses exércitos privados com capacidade suficiente para derrubar um pequeno governo.

Mercenários expandem ações na América Latina Colômbia e Bolívia já estão na mira da Blackwater

FOLH DE SÃO PAULO

DA REDAÇÃO

Se a ação de empresas mercenárias no Iraque é conhecida, a atuação na América Latina ainda anda longe dos olhos do grande público. Mas empresas como a americana Blackwater estão cada vez mais envolvidas com a guerra às drogas na Colômbia e fazem negócios com a brasileira Embraer. Leia a continuação da entrevista do jornalista americano Jeremy Scahill sobre mercenários. (ANDREA MURTA)

FOLHA - Como os mercenários atuam na América Latina?
SCAHILL - Neste exato momento, a Blackwater está participando de uma gigantesca concorrência para trabalhar para o governo americano em sua "luta contra as drogas". Esse programa, na América Latina, visa a agir na Colômbia e na Bolívia. Nesses países já há outra empresa do tipo, a DynCorp, que faz serviços para os EUA no que deveria ser ação antidrogas, mas que não passa de contra-insurgência. Os EUA repassam a Bogotá milhões de dólares ao ano dentro do Plano Colômbia, e estima-se que o governo colombiano gaste quase a metade com empresas mercenárias.
Elas treinam forças locais, pilotam helicópteros e já participaram de confrontos internos. No Brasil, a Embraer recentemente vendeu uma aeronave de combate Super Tucano para a Blackwater, em um acordo autorizado pelo governo Lula, em negociações com os EUA. Acho que isso levanta questões sérias sobre por que o Brasil acredita ser adequado vender aviões a uma empresa com uma reputação de abusos e violência no mundo inteiro. Até porque a América Latina é a próxima fronteira para essas empresas.

FOLHA - O sr. crê que a Blackwater dá proteção adequada a seus empregados?
SCAHILL - Essa é uma das ironias da Blackwater. Na maior parte dos casos, eles têm equipamentos melhores e pessoal mais qualificado do que um soldado comum americano, mas às vezes enviam equipes muito mal preparadas para situações muito perigosas. E é comum que contratados de países pobres sejam destacados para a linha de frente. E recebem menos: colombianos recrutados pela Blackwater foram enviados ao Iraque com um salário de US$ 34 por dia, enquanto um agente americano chega a receber US$ 650 diários. Parece que a vida de um colombiano vale menos, para a Blackwater, do que a de um americano.

FOLHA - A Blackwater também defende interesses econômicos e internos da Casa Branca?
SCAHILL - Sim. Atua na vigilância de investimentos americanos no exterior, por exemplo, nos planos de oleoduto na região do mar Cáspio. E tem forte atuação dentro dos EUA. Foram contratados para patrulhar Nova Orleans depois do furacão Katrina (2005). Acabaram de abrir um enorme centro de treinamento em San Diego (Califórnia), a poucos quilômetros da fronteira com o México, para treinar as patrulhas de fronteira. E discute-se a privatização da polícia de fronteira dos EUA.

FOLHA - Como os mercenários afetam a política mundial?
SCAHILL - As conseqüências são muito sérias. Os governos estão abrindo mão do monopólio da força e da "violência organizada", que é uma das coisas que definem o Estado. Agora há empresas privadas que têm a força e o poder de fogo para potencialmente substituir a necessidade de alianças como a Otan. A parte mais deprimente é que a penetração dos mercenários já foi longe demais, não sei como pode acabar.

MERCENÁRIOS NO IRAQUE ( PMC - PRIVATE MILITARY COOMPANY)



O mundo era um lugar muito diferente em 10 de setembro de 2001,quando Donald Rumsfeld subiu ao pódio do Pentágono para fazer um de seus primeiros longos discursos como secretário da Defesa do presidente George W. Bush.
Para a maioria dos americanos, a Al Qaeda não existia, e Saddam Hussein ainda era o presidente do Iraque.Rumsfeld já havia ocupado aquele cargo uma vez sob o presidente Gerald Ford, entre 1975 e 1977 —, mas voltara ao posto em 2001 com idéias Ambiciosas. Naquele dia de setembro do primeiro ano da administração Bush,Rumsfeld dirigiu-se aos funcionários do Pentágono encarregados de supervisionar os altos negócios dos contratos de defesa — gerenciando as Halliburtons, DynCorps e Bechtels. O secretário estava diante de um ruidoso grupo de ex-executivos da Enron, Northrop Grumman, General Dynamics e Aerospace Corporation — gente que ele havia inserido como seus altos delegados no Departamento de Defesa — e fez uma verdadeira declaração de guerra. “O assunto de hoje é um adversário que representa uma ameaça, uma séria ameaça à segurança dos Estados Unidos da América”, trovejou Rumsfeld.1“Esse
adversário é um dos últimos bastiões do planejamento central no mundo de hoje. Seu governo se faz com base em planos qüinqüenais. De uma única capital,ele tenta impor suas exigências por meio de fusos horários, continentes, oceanos e mais além.Com brutal coerência,sufoca o pensamento livre e esmaga novas idéias.Desorganiza a defesa dos Estados Unidos e põe em risco as vidas de homens e mulheres de uniforme.” Fazendo uma breve pausa em prol do efeito dramático,Rumsfeld — ele próprio um veterano da Guerra Fria — disse então a sua nova equipe:“Talvez esse adversário lembre a antiga União Soviética, mas ela é um inimigo que não existe mais: hoje, nossos inimigos são mais sutis e implacáveis. Talvez vocês imaginem que eu esteja descrevendo um dos últimos ditadores decrépitos do mundo.Mas os dias desses ditadores também estão quase terminados, e eles não são páreo para a força e o tamanho do adversário a que me refiro. Esse adversário está mais perto de casa. É a burocracia do Pentágono.” Rumsfeld estava propondo uma mudança geral na administração do Pentágono, a substituição da velha burocracia do Departamento de Defesa por um novo modelo, baseado no setor privado. O problema, explicou ele, era que, diferentemente dos negócios,“os governos não podem morrer; por isso, precisamos
encontrar outros incentivos que façam a burocracia se adaptar e melhorar”. O que estava em jogo, declarou, era assustador — “uma questão de vida e morte, em última instância, para todos os americanos”.Naquele dia, Rumsfeld anunciou uma grande iniciativa para modernizar a capacidade de intervenção do setor privado nas guerras empreendidas pelos Estados Unidos, e previu que sua iniciativa encontraria feroz resistência.“Alguns poderão perguntar: ‘Como pode o secretário de Defesa atacar o Pentágono diante de seus próprios funcionários?’”, continuou Rumsfeld,dirigindo-se a sua platéia.“A esses, respondo que não tenho intenção de atacar o Pentágono; quero libertá-lo.Nós precisamos salvar esta instituição de si mesma.” Na manhã seguinte, o Pentágono seria literalmente atacado, quando o vôo 77 da American Airlines — um Boeing 757 — chocou-se contra sua face oeste. Rumsfeld ficaria famoso por ajudar a resgatar corpos dos escombros.Mas não demoraria muito para que ele, o grande mestre do militarismo, aproveitasse a quase inimaginável oportunidade oferecida pelo 11 de setembro para acelerar sua guerra pessoal, exposta apenas um dia antes. O mundo havia mudado de maneira irreversível, e num instante o futuro da mais poderosa força militar do planeta se tornara uma tela em branco, na qual Rumsfeld e seus aliados poderiam pintar sua obra-prima.A nova política do Pentágono dependeria muito do
setor privado, daria ênfase a operações secretas, a sofisticados sistemas de armamentos e ao grande uso de forças especiais e de prestadores de serviço. Isso ficou conhecido como a Doutrina Rumsfeld.“Precisamos promover uma abordagem mais empresarial: uma abordagem que incentive as pessoas à pronta ação, e não à reação, e a se comportarem menos como burocratas e mais como capitalistas empreendedores”, escreveu Rumsfeld, no verão de 2002, num artigo para a revista Foreign Affairs intitulado “Transformando os militares”.2 A abordagem “minimalista”de Rumsfeld abriu a porta para uma das mais significativas tranformações na guerra moderna — o amplo uso de prestadores de serviço,ou contratados, em todos os aspectos da guerra, inclusive em combate. Entre os que logo receberam chamados da administração para se juntar a uma “guerra global ao terror”, a ser lutada de acordo com a Doutrina Rumsfeld, havia uma companhia pouco conhecida que funcionava em um campo particular
de treinamento militar perto de Great Dismal Swamp, um pântano da Carolina do Norte. Seu nome era Blackwater USA.Depois da grande tragédia do 11 de setembro, praticamente da noite para o dia uma empresa que mal existia até poucos anos antes se tornaria peça central na guerra global desencadeada pelo império mais poderoso da história.“Trabalho no ramo de treinamento há quatro anos e estava começando a ficar um pouco cínico quanto à seriedade com que as pessoas encaram a segurança”, disse o proprietário da Blackwater, Erik Prince, ao entrevistador da Fox News, Bill ’Reilly, pouco depois do 11 de setembro.“Agora, meu telefone não pára de tocar.” 3 Mas a história da Blackwater não começa no 11 de setembro,nem com seus executivos ou mesmo com sua fundação.De certa forma, ela resume a história da guerra moderna. Em essência, a Blackwater é o coroamento da obra de uma vida inteira daqueles que formaram o cerne da equipe de guerra da administração Bush.
Durante a Guerra do Golfo, em 1991, Dick Cheney — grande aliado de Rumsfeld — era secretário da Defesa.Na época, dez por cento das pessoas posicionadas na zona de guerra estava ali por força de um contrato privado, uma porcentagem que Cheney tinha o firme propósito de aumentar.Antes de deixar o cargo, em 1993, ele encomendou um estudo a uma companhia que acabaria por dirigir: a Halliburton.Tratava-se de um estudo sobre como privatizar rapidamente a burocracia militar. Quase da noite para o dia, a Halliburton criaria sozinha uma indústria de prestação de serviços militares aos Estados Unidos no exterior, com um potencial de lucros aparentemente infinito. Quanto mais agressivamente os Estados Unidos expandissem seu alcance militar, melhor
para os negócios da Halliburton. Era um protótipo para o futuro.Nos oito anos
seguintes do governo Bill Clinton, Cheney trabalhou no American Enterprise Institute, influente grupo neoconservador de pesquisas interdisciplinares que
liderou a investida por uma aceleração no processo de privatização do governo
e das Forças Armadas norte-americanas. Por volta de 1995, Cheney estava no
comando da divisão da Halliburton que se tornaria o maior prestador de serviços
de defesa aos Estados Unidos. O presidente Clinton apoiou em grande parte esses planos de privatização, e a empresa de Cheney — assim como outras prestadoras
de serviços — fechou lucrativos contratos durante o conflito dos Bálcãs,nos anos 90, e na guerra do Kosovo, em 1999. Em meados da década de 90,uma empresa de consultoria militar baseada na Virgínia, a Professional Resources Incorporated, dirigida por graduados oficiais aposentados, foi autorizada pela administração Clinton a treinar tropas croatas para sua guerra separatista contra a Iugoslávia dominada pelos sérvios; um contrato que em última análisedesequilibrou a balança naquele conflito. Esse contrato foi o prenúncio de um tipo de envolvimento do setor privado que se tornaria padrão na guerra ao terror. Mas a privatização foi apenas parte de um programa mais abrangente.Cheney e Rumsfeld foram membros-chave do Projeto para um Novo Século Americano (PNAC), iniciado em 1997 pelo ativista neoconservador William Kristol.4 O grupo fez pressão para que Clinton promovesse uma mudança de regime no
Iraque,e seus princípios,que advogavam “uma política de força militar e clareza
moral”,5 formariam as bases de grande parte da política externa da administração
Bush.



Em setembro de 2000, apenas meses antes de seus membros passarem a integrar o núcleo central do governo Bush, o Projeto para um Novo Século Americano lançou um relatório chamado Rebuilding America’s Defenses: Strategy,Forces and Resources for a New Century [Reconstruindo as defesas dos Estados Unidos: estratégia, forças e recursos para um novo século].Ao expor a visão do PNAC sobre a revisão da máquina de guerra norte-americana, o relatório reconhecia que “o processo de transformação, ainda que portador de mudanças revolucionárias, provavelmente será longo, caso não haja algum
evento catastrófico ou catalisador — como um novo Pearl Harbor”.6 Um ano depois, os ataques do 11 de setembro forneceriam o necessário catalisador: uma justificativa sem precedentes para o avanço desse programa radical, moldado por um pequeno núcleo de agentes neoconservadores que haviam acabado de assumir o poder oficial.
Paralelamente às guerras do período posterior ao 11 de setembro, desenrolou-se um subenredo freqüentemente ignorado: o da terceirização e da privatização que esses conflitos possibilitaram. Desde o momento em que a equipe de Bush tomou o poder, o Pentágono abarrotou-se de ideólogos como Paul Wolfowitz,Douglas Feith,Zalmay Khalilzad e Stephen Cambone,bem como de ex-executivos de grandes empresas — muitas delas grandes fabricantes de armamentos —, como o subsecretário de Defesa Pete Aldridge (Aerospace Corporation), o ministro do Exército Thomas White (Enron), o ministro da Marinha Gordon England (General Dynamics) e o ministro da Aeronáutica James Roche (Northrop Grumman).A nova liderança civil do Pentágono chegou ao poder com dois objetivos principais: a mudança de regime em nações estratégicas e a implementação da operação de privatização e terceirização mais abrangente da história militar dos Estados Unidos — uma revolução nos assuntos militares. Depois do 11 de setembro, essa campanha não pôde mais ser detida.
A rápida derrota do Talibã no Afeganistão revigorou Rumsfeld e o governo, o que possibilitou o planejamento da pedra angular da cruzada neoconservadora: o Iraque.Desde o primeiro momento em que as tropas dos Estados Unidos começaram a se agrupar,durante os preparativos para a invasão,o Pentágono fez dos contratos particulares parte integral das operações.Mesmo enquanto o país aparentava publicamente envidar esforços diplomáticos,a Halliburton se preparava, a portas fechadas,para a maior operação de sua história.Quando os tanques norte-americanos entraram em Bagdá, em março de 2003, transportavam com eles o maior exército de prestadores de serviços já empregado numa guerra.Ao final do mandato de Rumsfeld, estima-se que havia cerca de 100 mil contratados em território iraquiano — quase um para cada soldado norte-americano em ação.7 Para grande satisfação da indústria da guerra, antes de sair, Rumsfeld tomou a extraordinária medida de classificar esses prestadores de serviços como parte oficial da máquina de guerra dos Estados Unidos.Na Revisão Quadrienal do Pentágono de 2006, Rumsfeld esboçou o que chamou de um “guia para a mudança” no Departamento de Defesa, que afirmou ter começado em 2001.8O documento definia a “Força Total do Departamento” como “os componentes
militares ativos e da reserva, bem como os servidores civis e contratados — constituindo nosso efetivo e nossa capacidade de guerra.Membros da Força Total
servem em milhares de lugares ao redor do mundo,desempenhando vasta gama de tarefas no cumprimento de missões críticas”.
Da maneira como foi feita, em meio a uma guerra global sem limites ou definição precisa, essa oficialização formal representou uma negação radical dos agourentos alertas lançados pelo presidente Eisenhower em sua mensagem de despedida à nação, décadas antes,advertindo para o que ele via como as “graves implicações” da ascensão do “complexo militar-industrial”. Em 1961, Eisenhower declarava: “O potencial para a ascensão desastrosa de um poder mal exercido existe e continuará existindo.Não devemos jamais permitir que o peso dessa combinação ponha em perigo nossas liberdades e nossos processos democráticos. Nada está garantido. Somente uma cidadania alerta e bem informada pode manter o entrosamento apropriado da grande maquinaria industrial e militar de defesa com nossos métodos e metas pacíficos, de tal forma que a segurança e a liberdade possam prosperar juntas”. O que se concretizou nos anos seguintes, e em especial na administração Bush, não foi nada menos do que o exato cenário que Eisenhower profetizara de forma sombria. Embora a guerra ao terror e a ocupação do Iraque tenham dado origem a inúmeras empresas, poucas tiveram uma ascensão tão meteórica quanto a Blackwater ao poder, ao lucro e à proeminência — talvez nenhuma outra. Em menos de uma década, a Blackwater saiu de um pântano na Carolina do Norte para se tornar uma espécie de Guarda Pretoriana da “guerra global ao terror” movida pela administração Bush.Hoje, ela tem mais de 2,3 mil soldados particulares operando em nove países,inclusive dentro dos Estados Unidos.Mantém um banco de dados com 21 mil ex-agentes e soldados das Forças Especiais,além de policiais aposentados, que pode convocar a qualquer momento. A companhia tem também uma frota particular de mais de vinte aeronaves, incluindo-se
aí helicópteros de combate e uma divisão de zepelins de reconhecimento. Seu quartel-general de 28 quilômetros quadrados em Moycock, na Carolina do Norte, é a maior instalação militar privada do mundo, treinando por ano dezenas de milhares de agentes da lei, locais ou federais, bem como soldados de países estrangeiros “amigos”.A Blackwater tem sua própria divisão de inteligência e conta, entre seus executivos, com ex-oficiais de inteligência e ex-militares graduados. Recentemente, iniciou-se a construção de novas instalações na Califórnia (“Blackwater West”) e em Illinois (“Blackwater North”), assim como de um campo de treinamento na selva filipina. A companhia possui mais de 500 milhões de dólares em contratos com o governo — e isso não inclui seu orçamento secreto de operações “clandestinas” para agências de inteligência dos Estados Unidos ou para empresas, indivíduos e governos estrangeiros. Como observou um congressista norte-americano, em termos estritamente militares, a Blackwater poderia depor muitos governos do mundo.
É,portanto,um Exército particular,controlado por uma única pessoa:Erik Prince, um megamilionário cristão de extrema direita que tem sido um dos maiores financiadores não apenas das campanhas do presidente Bush, como também da direita cristã em geral. Na verdade, até a elaboração deste livro, Prince nunca havia doado um tostão para um candidato democrata — certamente um direito seu, mas, por outro lado, um comportamento incomum para o proprietário de uma empresa tão poderosa em serviços bélicos e que revela tanto sobre a sinceridade de seu compromisso ideológico. A Blackwater tem constituído um dos batalhões mais eficientes na guerra de Rumsfeld no Pentágono, e Prince fala com ousadia do papel de sua companhia na radical transformação da força militar dos Estados Unidos.“Quando você envia alguma coisa e
quer que ela chegue no dia seguinte, usa o correio ou a FedEx?”, perguntou ele durante um recente painel de discussão com oficiais militares.“Nossa meta é fazer pelo aparato de segurança nacional o que a FedEx fez pelo serviço postal.”9 Talvez o sinal de transformação mais revelador tenha sido dado quando a Casa Branca terceirizou o serviço de proteção a funcionários governamentais mais graduados no Iraque,entregando-o à Blackwater a partir de 2003.



Quando L. Paul Bremer, enviado de Bush no primeiro ano da ocupação, instalou-se em
Bagdá para implementar os planos do presidente, estava sob a proteção da Blackwater, assim como sob sua proteção estiveram todos os sucessivos embaixadores norte-americanos no Iraque.Em comparação com os soldados da ativa, muito mal remunerados,os guardas da Blackwater recebem salários de seis dígitos.“ Antes, os salários comuns para profissionais de segurança pessoal [no Iraque] giravam em torno de trezentos dólares [por pessoa] por dia”, relatou a revista Fortune na época. “Quando a Blackwater começou a recrutar homens para seu primeiro grande trabalho, dar proteção a Paul Bremer, o pagamento saltou para seiscentos dólares por dia.”10 Quase sem nenhum debate público, a administração Bush terceirizou funções historicamente conduzidas pelos militares. E, em grande medida, essas companhias particulares não prestam contas aos contribuintes norte-americanos, de quem extraem seus lucros. Alguns começaram a comparar o mercado mercenário no Iraque com a Corrida do Ouro no Alasca ou com episódios do Velho Oeste.Como observou o Times lon-
drino à época:“No Iraque, a indústria que vem florescendo no pós-guerra não é a do petróleo. É a da segurança”.11 Enquanto esse inaudito exército privado se expandia no Iraque, o último ato de Bremer antes de se esgueirar para longe de Bagdá, no dia 28 de junho de 2004, foi um decreto conhecido como Ordem 17, isentando de eventuais processos penais os prestadores de serviços no país.12 Foi um ato significativo no
mar de políticas (e de ausência de políticas) que regulamentam a ocupação,um
incentivo às forças privadas. Enquanto soldados dos Estados Unidos têm sido
processados por matanças e torturas no Iraque,o Pentágono não impôs as mesmas regras às vastas forças privadas. Esse assunto foi abordado durante uma das raras audiências no Congresso norte-americano sobre os contratados no Iraque, que ocorreu em junho de 2006.Nela, que ouviu também diversos funcionários governamentais, a Blackwater representou a indústria. O congressista Dennis Kucinich questionou Shay Assad, diretor de licitações e aquisições do Pentágono — a seção do Departamento de Defesa responsável pela contratação de serviços. Kucinich observou que as tropas norte-americanas, sujeitas às regras de combate, respondiam a processos por violações de conduta no Iraque, o mesmo não acontecendo com os prestadores de serviços. Até a data daquela audiência, prosseguiu ele,“nenhum fornecedor de segurança privado havia sido processado”.13 Em seguida, perguntou diretamente a Assad: “Será que o Departamento de Defesa estaria preparado para um eventual processo
movido contra um prestador de serviço acusado de ter comprovada e ilegalmente matado um civil?”. “Não posso responder a essa pergunta, senhor”, respondeu Assad.
“Uau!”, retrucou Kucinich.“Pense no que isso significa. Esses prestadores de serviços podem escapar impunes de um assassinato.” Os contratados, disse Kucinich, “parecem não estar sujeitos a nenhuma lei e, portanto, dispõem de licença para fazer justiça com as próprias mãos”. A Blackwater já declarou abertamente que suas forças estão acima da lei.Ao resistir às tentativas de submeter seus soldados ao Código Unificado de Justiça Militar (UCMJ) do Pentágono — insistindo em que eles são civis —,a companhia afirmou gozar de imunidade também no tocante a processos civis nos Estados Unidos, alegando que suas forças são parte do efetivo militar norte-americano, a chamada Força Total. A empresa tem argumentado em depoimentos legais
que, se os tribunais permitirem que ela seja processada por crimes cometidos
por seus contratados, isso poderia ameaçar a capacidade bélica da nação:“Para
que prestadores de serviços responsáveis possam acompanhar as Forças Armadas
dos Estados Unidos no campo de batalha, é essencial que sua isenção de responsabilidade por baixas seja protegida pelo governo federal e aplicada uniformemente nos tribunais federais.Nada poderia ser mais destrutivo ao conceito
de Força Total subjacente à doutrina do poderio militar norte-americano — conceito este que se apóia no amplo voluntariado — do que expor seus componentes privados aos sistemas de responsabilização penal de cinqüenta estados,transportados para campos de batalha no exterior [...] Trata-se de matéria que foge à alçada [dos tribunais] tanto quanto foge também dessa alçada a forma como o presidente supervisiona e comanda essas operações militares, incluindo- se aí as decisões tomadas por meio da cadeia de comando referentes a treinamento,movimentação, armamentos, missões, composição, planejamento,análise, gerenciamento e supervisão de fornecedores militares privados, bem como de suas missões”.14 Em vez disso, a Blackwater alega que suas forças operam com base num código de conduta próprio, escrito por sua própria associação, ironicamente chamada Associação Internacional de Operações de Paz (International Peace Operations Association). Erik Prince afirma que suas forças são “responsáveis perante o país”,15 como se declarações de lealdade à bandeira constituíssem prova de motivos ou atos justos, ou como se oferecessem um substituto para uma estrutura legal independente. Essa lógica é incentivada não apenas pela imunidade virtual já estendida a esses prestadores de serviços, como também pelo fracasso do Pentágono em supervisionar sua maciça força privada, agora oficialmente reconhecida como parte da máquina de guerra dos Estados Unidos. Tais prestadores de serviços operam numa zona de legalidade difusa, que dá margem a abusos explícitos.No
final de 2006, uma emenda de uma única linha foi inserida em silêncio no maciço projeto de lei, submetido ao Congresso em 2007, que trata dos gastos com a defesa e foi assinado pelo presidente Bush. A emenda permitiria submeter prestadores de serviços em zonas de guerra ao UCMJ do Pentágono, isto é, ao sistema de corte marcial.16 Os militares, porém, já têm problemas suficientes no policiameno de suas próprias forças, e não se há de esperar deles que monitorem com eficiência mais 100 mil contratados privados. Embora a emenda de meras cinco palavras mal estabeleça um sistema de supervisão independente, os peritos prevêem que ela ainda enfrentará feroz resistência por parte da indústria privada da guerra. A despeito do apoio sem precedentes a prestadores de serviços empregados no Iraque,no Afeganistão e em outros lugares,o governo ainda não conseguiu nem sequer contabilizá-los, quanto mais fiscalizá-los. Um relatório do Gabinete de Responsabilidade Governamental (GAO) informava,em dezembro de 2006, que os militares não dispunham de um sistema eficiente de supervisão e que “os funcionários do governo não foram capazes de determinar o número de fornecedores utilizados nas bases do Iraque”.17 O Exército e a Força Aérea foram incapazes de fornecer aos investigadores do GAO“o número de contratados empregados em localidades ocupadas ou a natureza dos serviços que
esses contratados prestaram às forças dos Estados Unidos”. O GAO concluiu que “problemas com o gerenciamento e a supervisão dos prestadores de serviços tiveram um impacto negativo nas operações militares e no moral da unidade, prejudicando a capacidade do Departamento de Defesa de afirmar com alguma segurança se os fornecedores estão de fato cumprindo as exigências contratuais, e se o estão fazendo de forma eficiente em termos de custos”.



Uma semana depois da Rumsfeld deixar o Pentágono, as Forças Armadas dos Estados Unidos estavam tão sobrecarregadas pela guerra ao terror que o exsecretário de Estado, general Colin Powell,declarou:“O Exército ativo está quase falido”.18 Em vez de repensar suas políticas agressivas e as guerras de conquista, a administração Bush e o Pentágono falavam da necessidade de aumentar o tamanho das forças militares. Prince já havia feito sua proposta: a criação do que ele chamou de uma “brigada de contratados”para suplementar a força militar convencional dos Estados Unidos.“Existe consternação no Departamento de Defesa quanto ao aumento de tamanho do Exército permanente”, ele declarou.“Queremos aumentá-lo em 30 mil pessoas, mas nos falaram de custos que variam de 3,6 a 4 bilhões de dólares para tanto. Bem, pela minha matemática, isso dá cerca de 135 mil dólares por soldado [...] Nós certamente poderíamos fazer isso a um preço mais baixo.”19 Foi uma declaração extraordinária, que só poderia vir de um homem de posse de seu próprio exército.Prince gosta de caracterizar a Blackwater como um prolongamento patriótico das forças militares norte-americanas e, em setembro de 2005, emitiu um memorando para toda a companhia
requerendo que seus funcionários e contratados prestassem o mesmo juramento de lealdade à Constituição do país que é feito pelos “clientes da Blackwater ligados
à Segurança Nacional (ou seja,Pentágono, Departamento de Estado e agências de inteligência)”: o de “apoiar e defender a Constituição dos Estados Unidos contra todos os inimigos, externos ou internos [...].Com a ajuda de Deus”.20 Porém, a despeito desse retrato da Blackwater como uma empresa puramente americana que procura defender os indefesos, alguns de seus projetos mais secretos e ambiciosos revelam uma realidade bem diferente e assustadora. Em maio de 2004, ela inscreveu em segredo no Registro Central de Prestadores de Serviços do governo dos Estados Unidos uma nova divisão: a Greystone Limited.Mas em vez de estabelecer a companhia na Carolina do Norte, na Virgínia ou em Delaware, como suas outras divisões, a Greystone foi registrada offshore, em Barbados, no Caribe, e devidamente classificada pelo governo americano como “entidade empresarial isenta de impostos”.21 Os folhetos promocionais da Greystone ofereciam aos possíveis clientes “equipes proativas de assalto” que poderiam ser contratadas “para atender a exigências de segurança existentes ou emergentes, de acordo com as necessidades dos clientes no exterior. Nossas equipes estão prontas para conduzir medidas de estabilização,proteção e recuperação de ativos, bem como retiradas emergenciais de pessoal”. Ofereciam também uma grande variedade de serviços de treinamento, até no
tocante a “operações de defesa e ataque para pequenos grupos”. A Greystone gabava-se de “manter e treinar uma força de trabalho extraída de uma base variada de ex-membros de operações especiais, defesa, inteligência e de profissionais da lei prontos para serem empregados a qualquer momento, em qualquer lugar do mundo”. Ela alegava recrutar seus profissionais em lugares como Filipinas, Chile, Nepal, Colômbia, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá e Peru — países cujas forças em grande parte apresentam fichas corridas de respeito aos direitos humanos no mínimo questionáveis. Os formulários de inscrição pediam aos candidatos que indicassem suas qualificações em armas: fuzil AK-47, Glock 19, fuzis da série M-16, carabinas M-4, metralhadoras,morteiros, foguetes e granadas antitanques. Entre os profissionais procurados, havia franco-atiradores, atiradores, peritos em artefatos explosivos e pessoas com experiência em unidades de assalto.No Iraque, a Blackwater desembarcou inúmeros mercenários chilenos, alguns dos quais foram treinados e serviram durante o regime brutal de Augusto Pinochet. “Nós reviramos os confins da Terra para encontrar bons profissionais”, disse o presidente da Blackwater,Gary Jackson.“Os comandos chilenos são muito profissionais e se encaixam perfeitamente no sistema da empresa.
Com as Forças Armadas domésticas sobrecarregadas até o limite — e impossibilitadas de novos recrutamentos por motivos políticos —, resta ao governo dos Estados Unidos batalhar para encontrar aliados que preencham as vagas em sua “guerra global ao terror”. Se os exércitos de outros países não desejam se aliar numa “coalizão da boa vontade”, a Blackwater e seus aliados oferecem outro tipo de solução: a internacionalização das forças militares, com recrutamento de soldados particulares em todo o planeta. Se os governos estrangeiros não querem participar do jogo, soldados estrangeiros — muitos dos quais de países que se opõem às guerras dos Estados Unidos — podem ser alistados a preços módicos. Esse processo, alegam os críticos, não é senão uma subversão da própria existência da nação-Estado e de seus princípios de soberania e autodeterminação.“O uso cada vez maior de contratados, de forças particulares ou do que alguns definiriam como ‘mercenários’ torna mais fácil começar e lutar uma guerra — necessário é apenas o dinheiro, e não a cidadania”, diz
Michael Ratner, presidente do Centro de Direitos Constitucionais (CCR), organização
que abriu processo contra alguns contratados por supostas violações de direitos humanos no Iraque.23 “Quando uma população é convocada para ir à guerra, existe uma resistência, que é necessária até para evitar guerras de autoengrandecimento, guerras tolas ou, no caso norte-americano, guerras imperialistas hegemônicas.Tropas particulares são quase uma necessidade para os Estados Unidos, empenhados em manter um império em declínio. Pense em Roma e em sua crescente necessidade de mercenários. É o mesmo que acontece hoje nos Estados Unidos. Se se tornar difícil controlar uma população raivosa e oprimida mediante uma força policial obediente à Constituição... as tropas particulares podem resolver esse ‘problema’.” Assim como a Halliburton, que é a maior prestadora de serviços do Pentágono, a Blackwater se diferencia de outras empresas que simplesmente lucram com a guerra pelas características específicas da visão de longuíssimo prazo de seus executivos. Essas duas empresas não somente aproveitaram um momento lucrativo, como muitas de suas concorrentes, mas lançaram-se também a cavar um nicho permanente para si próprias por décadas à frente.Todavia, as aspirações da Blackwater não se limitam a guerras internacionais. Suas forças se anteciparam à maioria das agências federais em Nova Orleans, depois
da passagem do furacão Katrina em 2005,quando centenas de mercenários fortemente
armados — alguns recém-chegados do Iraque — espalharam-se pela zona de desastre. Em uma semana, eles foram oficialmente contratados pelo Departamento de Segurança Interna para operar na região, cobrando do governo federal 950 dólares por dia por soldado.24 Em menos de um ano, a Blackwater havia se apropriado de mais de 70 milhões de dólares em contratos federais relacionados com o furacão — cerca de 243 mil dólares por dia.25A empresa viu no Katrina outro momento de grande oportunidade, e logo começou a requisitar permissão para ser contratada pelos governos de todos os cinqüenta estados americanos. Os executivos da Blackwater reuniram-se com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, oferecendo-se para intervir no
estado em caso de um eventual terremoto ou de qualquer outro desastre.“Olha, nenhum de nós gosta da idéia de uma devastação se tornar uma oportunidade de negócio”, disse o funcionário da companhia que assumiu a direção da nova divisão de operações formada depois do Katrina.26“É um fato detestável, mas é assim mesmo.Médicos,advogados,donos de funerárias, até os jornais — todos ganham a vida com as coisas ruins que acontecem.Nós também,porque alguém tem que cuidar disso.” Porém, alguns críticos vêem o emprego de forças da Blackwater no próprio território norte-americano como um perigoso precedente que pode solapar a democracia no país. “Suas ações podem não estar sujeitas às limitações constitucionais que se aplicam aos funcionários públicos federais e estaduais — o que inclui a Primeira Emenda e a Quarta Emenda, que impedem buscas e apreensões ilegais. Diferentemente das forças policiais, essas forças não são treinadas para defender os direitos constitucionais”, diz Michael Ratner,da CCR.“Essa espécie de grupo paramilitar lembra os camisasmarrons dos nazistas, que funcionavam como um mecanismo de sanção
extrajudicial com direito de operar, e que na verdade operava, fora da lei. O
emprego desses grupos paramilitares é uma ameaça extremamente perigosa aos nossos direitos.”
O que se mostra particularmente assustador no papel da Blackwater numa guerra que o presidente Bush chamou de “cruzada” é que os principais executivos da companhia seguem uma agenda voltada para a supremacia cristã. Erik Prince e sua família doaram generosos recursos para a guerra dos direitos religiosos contra a secularização e a favor da expansão da presença do cristianismo na esfera pública.27 Prince é amigo íntimo e benfeitor de alguns dos militantes cristãos mais extremistas do país, como o ex-conspirador de Watergate,Chuck Colson — que acabou se tornando um dos assessores do presidente Bush e pioneiro das “prisões baseadas na fé” — e o líder conservador Gary Bauer, signatário da “Afirmação de princípios” do Projeto de um Novo
Século Americano.Prince, aliás, trabalhou com Bauer na juventude e era amigo íntimo de seu pai. Alguns executivos da Blackwater chegam a se vangloriar de serem membros dos Cavaleiros Soberanos da Ordem de Malta,28 uma milícia cristã formada no século XI, antes das primeiras Cruzadas, com a missão de defender “territórios que os cruzados haviam conquistado dos muçulmanos”.29




Atualmente, a Ordem se gaba de ser “uma organização soberana dentro das leis internacionais, com constituição própria, passaportes, selos e instituições públicas”, e de ter “relações diplomáticas com 94 países”.30 A terceirização das
operações militares dos Estados Unidos em países muçulmanos e em sociedades seculares, deixadas a cargo desses neocruzados, reforça os maiores temores de muitos no mundo árabe, assim como de outros oponentes das guerras do governo Bush.
A maior parte do mundo ouviu falar pela primeira vez em “companhias militares particulares” depois do infame 31 de março de 2004, quando quatro soldados da Blackwater caíram em uma emboscada em Fallujah, no Iraque — um linchamento macabro, que marcou uma guinada na guerra e desencadeou a resistência iraquiana.Muitos dos relatos da mídia na época (e ainda hoje) se referem àqueles soldados obscuros como “contratados civis” ou “trabalhadores estrangeiros para a reconstrução do Iraque”, como se fossem engenheiros, trabalhadores de construção,ajuda humanitária ou especialistas em água. O termo “mercenário” quase não foi usado para descrevê-los. E não por acaso.Na realidade, isso fez parte de uma campanha bastante sofisticada de mudança de imagem organizada pela própria indústria mercenária, e cada vez mais adotada hoje em dia por políticos, burocratas e demais figuras poderosas de Washington e de outras capitais ocidentais. Aqueles homens que morreram em Fallujah eram membros da maior parceira de Washington na “coalizão da boa vontade”—
maior em número do que a totalidade das tropas britânicas —, e ainda assim o mundo não fazia idéia de que eles estavam lá.A emboscada pôs a Blackwater em papel capaz de alterar as regulamentações que supervisionariam (ou não) uma indústria que se expandia a todo vapor, e da qual a companhia era a nova líder. Três meses depois, porém, a empresa assinaria um dos mais valiosos contratos de segurança internacional do governo dos Estados Unidos, responsabilizandose pela proteção de diplomatas em instalações americanas. As mortes largamente anunciadas de quatro de seus soldados se revelariam a mola propulsora que poria a companhia no caminho do sucesso pelos anos seguintes. A história da ascensão da Blackwater é um épico na história do complexo militar-industrial. A companhia é o símbolo vivo das mudanças forjadas pela
revolução nos assuntos militares e pelo programa de privatização radicalmente
ampliado pela administração Bush, tendo a guerra ao terror como pretexto.
Porém, mais fundamental ainda é que ela é uma história sobre o futuro da guerra, da democracia e da governança. Essa história vai do início da Blackwater, em 1996, com seus executivos visionários abrindo um campo de treinamento militar privado (a fim de “atender à demanda do governo pela terceirização do treinamento em armas de fogo e segurança”); passa pelo aumento do volume de contratos depois do 11 de setembro; e chega às ruas encharcadas de sangue de Fallujah, onde os cadáveres dos mercenários foram pendurados em uma ponte.Mas inclui ainda uma troca de tiros nos telhados da fortaleza de Muqtada al-Sadr, em Najaf; uma expedição ao mar Cáspio, rico em petróleo, onde o governo norte-americano mandou a Blackwater construir uma base
militar a poucos quilômetros da fronteira iraniana; uma incursão pelas ruas de
Nova Orleans,devastadas por um furacão; e muitas horas dentro dos centros de decisão em Washington, onde executivos da empresa são recebidos como os novos heróis da guerra ao terror. E, no entanto, a ascensão do mais poderoso exército mercenário do mundo começou bem longe dos atuais campos de batalha, na sonolenta cidade de Holland, em Michigan, onde Erik Prince nasceu de uma dinastia cristã de direita.Foi a família Prince que lançou as bases, gastando milhões de dólares durante muitas décadas, para que as mesmas forças que possibilitariam a meteórica ascensão da Blackwater chegassem ao poder.

sábado, 12 de setembro de 2009

Eu chorava por não ter sapatos até que um dia encontrei um homem que não tinha pés.


MUISTAS VEZES RECLAMAMOS POR NÃO TERMOS ALGUMAS COISAS NA VIDA, MAS OLHE A FOTO DE UM ENGENHEIRO DE COMBATE AMERICANO QUE PERDEU A MÃO NO IRAQUI EM UM MISSÃO REAL.

PENSAMENTO DO DIA

PARA COMEÇAR O DIA DE OPERAÇÕES, ME CARO AMIGO PEDRO AUMENTA A MINHA MOTIVAÇÃO COM A SEGUINTE FRASE:

...o que todos chamam de inferno é o nosso lar...

RAPEL COM MACA EM RIBANCEIRA












O OPERACIONAL PEDRO ME TRANSMETINDO UM POUCO DO CONHECIMENTO QUE DETÉ,.

OPERAÇÕES!!!!!

ANTI¬ SEQUESTRO E PROTEÇÃO DE EXECUTIVOS - UZIL

TÉCNICA PULSO COM SAQUE COM APENAS UMA MÃO

video


. : PUBLICO
Profissional das forças armadas, policia federal, civil e militar,bem como agente de segurança do governo, empresas privadas e agente de segurança em geral.


. : OBJETIVO
Dotar aos participantes de conhecimentos e familiarização com as mais modernas e avançadas Técnicas Israelenses e Proteção de Executivos e medidas Anti Sequestro.
Trata-se de um curso de nível internacional, onde o certificado é reconhecido e aceito em diversos paises.


. : METODOLOGIA
O curso tem por finalidade desenvolver uma metodologia de planejamento tático para a prevenção de delitos contra a pessoa.
Será desenvolvido através de uma parte teórica (técnicas expositivas) realizada em sala de aula e uma parte prática em pista para treinamento com veículo e estande de tiro e será efetuado em regime fechado, onde é feita uma avaliação rigorosa à aspectos fundamentais a cada um dos alunos, sobre o condicionamento físico, em reações emergenciais; defesa pessoal; coordenação motora; direção defensiva e ofensiva; chefia e liderança e correção de possíveis erros, pressão emocional e psicológico - "stress" físico e mental com tiros sob pressão.
Todas as alimentações são balanceadas por nutricionista para que o aluno tenha um bom desempenho no decorrer do curso.
O treinamento é efetuado com no máximo de 12 alunos, para que a didática seja assimilada com o máximo de aproveitamento.


. : CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

1º DIA 07:30 / 08:30 Café da manhã
08:30 / 13:30 Instrução teórica de Anti Sequestro e Proteção VIP, introdução geral do curso
13:30 / 14:30 Almoço
14:30 / 18:30 Continuação da Instrução
18:30 Jantar
2º DIA 07:30 / 08:30 Café da manhã
08:30 / 13:30 Nomenclatura, saque rápido resolução de pane na arma
13:30 / 14:30 Almoço
14:30 / 16:00 Tiro com saque rápido e tiro em ritimo devagar, médio e rápido
16:00 / 17:30 Tiro em diversas posições e tiro com resolução de panes
17:30 / 19:00 Tiro sob pressão e tiro embarricado
19:00 Jantar
3º DIA 07:30 / 08:00 Café da manhã
08:00 / 09:00 Treinamento de saque em diversas posições com resolução de pane e em diversas passagens
09:00 / 09:30 Tiro com posicionamento corporal e renovação de contato
09:30 / 11:30 Tiro em corrida e parado com dois alvos e diversas posições
11:30 / 12:30 Tiro em local com pessoas
12:30 / 13:30 Tiro em posições estratégicas
13:30 / 14:30 Almoço
14:30 / 16:00 Saque e tiro com mão direita e esquerda
16:00 / 18:00 Treinamento de tiro embarcado e desembarcado e regras de escolta
18:00 Jantar
4º DIA 07:30 / 08:30 Café da manhã
08:30 / 10:00 Krav Maga
10:00 / 13:30
2 equipes Treinamento de invasão em ambientes com pista diurna e noturna
Tiro embarcado e desembarcado
13:30 / 14:30 Almoço
14:30 / 18:00
2 equipes Treinamento de invasão em ambientes com refém
Escolta VIP a pé
18:00 Jantar
5º DIA 07:30 / 08:00 Café da manhã
08:00 / 09:00 Demonstração e treinamento de escolta VIP a pé e em movimento
09:00 / 13:30
2 equipes Demonstração e treinamento de embarque e desembarque
Escolta VIP a pé
13:30 / 14:30 Almoço
14:30 / 17:00
2 equipes Treinamento VIP
Escolta VIP dentro da empresa
17:00 / 18:30 Tiro VIP, Tiro equipe e Tiro final
18:30 / 19:30 Limpeza da arma
19:30 Jantar

6º DIA 08:00 / 08:30 Café da manhã
08:30 / 09:30 Deslocamento UZIL > Pista
09:30 / 12:00 Treinamento prático de Direção Defensiva, Ofensiva e Evasiva
12:00 / 12:30 Lanche
12:30 / 17:30 Continuação de treinamento
17:30 / 18:30 Deslocamento Pista > UZIL
18:30 / 19:00 Jantar
19:00 Encerramento

. : INCLUSO NO CURSO

Armamento pistola .380 (01 arma por aluno);
Munição (300 tiros reais + 50 tiros de manejo);
Material operacional (individual);
Camiseta (01 camiseta por aluno);
Certificado (contendo avaliação por matérias);
Material didático (individual) contém apostila completa;

. : DOCUMENTOS NECESSÁRIOS
Cópia simples: CPF, RG e Comprovante de residência;
Atestado médico APTO PARA PRÁTICA DE EXERCÍCIOS FÍSICOS (original);
Atestado de Antecedentes Criminais (original).


. : VALOR E FORMA DE PAGAMENTO
R$ 3.064,00 AVISTA (POR ALUNO) PREÇO PROMOCIONAL 30% DE DESCONTO PARA TURMA DE MAIO DE 2009 R$ 2.164,00 – MATRICULAS VAGAS LIMITADAS


. : FORMAÇÃO DO INSTRUTOR
ELI RAHAMIM
Serviu na Unidade de Elite do Exercito de Israel como comandante de ações Anti Terror e Anti Sequestro.
Especialista internacional em Proteção de Executivos com treinamentos e consultorias realizadas no Brasil, Peru, México, Guatemala e Israel.
É feita uma avaliação rigorosa a cada um dos alunos, sobre o condicionamento físico, em reações emergenciais; defesa pessoal; coordenação motora; direção defensiva e ofensiva; chefia e liderança e correção de possíveis erros.


"PARA LER E REFLETIR"

O treinamento de qualquer espécie e natureza é um estado de evolução assim como o espírito que segue em constantes evoluções no decorrer de uma vida. Se o espírito não se evolui a vida fica estagnada ou até mesmo sofrendo processo de regressão.
Da mesma forma é o treinamento, sem a sua evolução você estará sofrendo uma regressão, em quanto algumas espécies treinam você regride.
Produza, corra, evolua constantemente, só desta maneira você poderá alcançar os seus objetivos.
(Autor Desconhecido)

E-mail: uzil@uzil.com.br
Sede: 55 (011) 2798-1955 / 2957-6590 / 3493-0789 / 3938-0608
Cel: 55 (011) 7714-5497
Nextel: 55*25*6100

CODIGO “Q”.

PARA OS QUE NECESSITAM AI VAI:

QAP - Ficar na escuta
QRA -Nome da estação ou do operador.
QRE - Hora de chegada.
QRG - Freqüência de transmissão / recepção
QRI -Tonalidade de transmissão
QRK -Clareza dos meus sinais 1,2,3,4 e 5
QRM - Interferência na transmissão
QRO - Aumentar a potência de transmissão
QRQ -Transmitir mais depressa
QRS - Transmitir mais devagar
QRU -Tem algo para mim?
QRW- Devo avisar que você chama na freqüência …
QRY - Qual é a minha vez de transmitir.
QSA- Qual é a intensidade do meu sinal 1,2,3,4 e5
QSC – Sua embarcação é de carga?
QSE – Deslocamento da embarcação de salvamento
QSG – Transmissão de…mensagem de uma só vez
QSI – Não consegui interrompe a estação…
QSK – Pode ouvir-me entre seus sinais?
QSM – Repetir o último câmbio.
QSO – Comunicado ou contato entre estações
QSQ – Há médico no local?
QSS – Freqüência de trabalho habitual
QSX – Transmitir o indicativo de chamada da estação
QTA – Cancelar a última mensagem
QTC – Mensagem de urgência
QTH – Localização ou endereço da estação
QTJ – Velocidade aproximada
QTN – Hora de saída
QTR – Hora certa
QTU – Horário de transmissão
QTX – Manter-se atento para um novo comunicado
QUD – Recebimento de mensagem de urgência
QUD – Busca ou salvamento
QSZ – Transmissão pausada (em trechos)
QRR – Distância entre as estações
QRD – Rádio
QRF – Local a que regressa
QRH – Freqüência variando
QRJ – Chamadas radiotelefônicas
QRL – Estou ocupado
QRN – interferência por estática
QRP – Diminuir a potência de transmissão
QRR – Operação automática / computador
QRT – Cessar a transmissão (desfazer)
QRV – A disposição
QRX – Aguarde nessa freqüência
QRZ – Quem está chamando?
QSB – Variação de sinal
QSD –A linha de transmissão está defeituosa
QSF – Atendimento de ocorrência
QSH – Usar equipa. rádiogoniométrico
QSJ – Valor monetário ou taxa
QSL – Confirmação de ter recebido mensagem
QSN – Você me escutou?
QSP – Retransmitir uma mensagem
QSR – Repetir chamada na freqüência
QSU – Trans / rece na mesma freqüência
QSY – Mudança de freqüência
QTB – Concorda com algo
QTE – Orientação de posição
QTI – Rumo ou destino no momento
QTL – Almoço / jantar
QTQ – Comunicação por código Q
QTS – Transmita seu indicativo
QTW – Estado dos sobreviventes
QUA – Notícias de alguém
QUF – Recebimento de mensagem de perigo
QUT – Local de um acidente

DIFERENÇA ENTRE OS CALIBRES 7,62 E .308 WINCHESTER

SEGUE TEXTO REFERENE A DIFERENCA ENTRE 7,62 E 308

Peço licença ao Marcello G. Torres, autor do tópico para disponibilizar seu artigo aqui, pois é um texto que realmente merece ser disseminado aos amantes do tiro, em especial aqueles que são adeptos ao tiro de fuzil.


O .308 Winchester e o 7,62 X 51mm parecem, MAS NÃO SÃO o mesmo calibre!

Para começar, é preciso deixar claro que fora o calibre nominal das pontas (7,62mm = .30 pol.), há muito pouco em comum entre ambos!

As dimensões do .308 pelo padrão SAAMI (Sporting Arms and Ammunition Manufacturers Institute) e as especificações militares do 7,62 são próximas o suficiente para um caber no outro, mas distantes o bastante para causar MUITOS problemas, inclusive sérios riscos às armas e aos atiradores.

Observemos que as dimensões externas de ambos são as mesmas, porém as câmaras de cada um (e outros fatores) NÃO SÃO!

Um resumo das diferenças é o seguinte:

1) As dimensões internas e de headspace das câmaras do .308 e do 7,62 são diferentes, tanto quanto são diferentes os "gauges" (calibradores-padrão) GO, NO-GO e FIELD REJECT de um e outro. O .308 tem as seguintes dimensões para cálculo de headspace sobre a linha média dos ombros (datum line) das câmaras:

GO – 1,6300 pol. // NO-GO – 1,6340 pol. // FIELD – 1,6380 pol.

Já o 7,62 não tem um padrão SAAMI, mas especificações militares definidas pelas FFAA norte-americanas, NATO etc.:

GO – 1,6350 pol. // NO-GO – 1,6405 pol. // FIELD – 1,6455 pol.

Vejam que as diferenças são assaz significativas, e é fácil de perceber que as câmaras militares são bem maiores que as civis! A razão é que as peças militares precisam trabalhar longa e perfeitamente sob as mais diversas condições de utilização, muitas vezes sem contar com qualquer manutenção ao longo dos combates. Armas civis não têm essas mesmas exigências a satisfazer.

Mas não é só isso:

2) As pressões de câmara do 7,62 e o 308 são ENORMEMENTE disparatadas, não apenas em números absolutos, mas tb pelos métodos de medição etc.:

- 7,62 X 51mm – máximo de 50.000 PSI // Prova padrão de 67.000 PSI

- .308 Winchester – máximo de 62.000 PSI // Prova de 83-89.000 PSI

Isto significa que o 7,62 trabalha a pressões médias muito mais brandas que o .308 Winchester, e por que? Porque, mais uma vez, as armas militares devem se manter funcionando sob as mais extremas condições enquanto as armas civis podem (e devem) ser tratadas com muito mais apreço, além da preocupação que os fabricantes civis têm com a recarga de munições.

Mas ainda não terminaram as diferenças!

3) A espessura das paredes e bases dos estojos militares 7,62 X 51mm é notavelmente maior do que os estojos .308 Winchester civis. Isso é necessário porque a munição militar deve funcionar sob regimes exigentíssimos nas mais diferentes armas, com diferentes dimensões de câmaras. Tudo isso sem se preocupar - ATENÇÃO! - com as condições dos estojos APÓS o uso! Já os fabricantes civis têm a obrigação e todo o interesse de diminuir essas variações ao máximo em benefício da segurança e da universalidade de uso das munições comerciais nas suas armas. Adicionalmente, há toda uma indústria de recarga que faz uso desses estojos e espera poder reutilizá-los após o tiro, coisa que não importa em nada (ou quase) aos militares.

No fim da reta, moçada, a regra de ouro é:

- Evite ao máximo utilizar munição .308 em fuzis com câmaras militares (7,62 X 51mm)!

Para garantir sua segurança, meça cuidadosamente a câmara do seu fuzil com os "gauges" SAAMI, e se a câmara não passar o teste SAAMI FIELD, das duas uma:

- Ou você passa a usar apenas estojos 7,62, OU...
- Ou você procura um armeiro INTEIRAMENTE confiável e experiente e pede a ele/a que refaça sua câmara para o headspace do .308 Winchester.


Complemento postado por Carlos T.:

Vale lembrar que a destinação dos cartuchos em sua concepção visava armas e usos diferentes.
O 7,62 Nato foi desenhado para ser usado em armas tais como as M1/M14 onde a previsão é de fogo automático ou mesmo semi-automático em até 20 a 40 tiros por minuto. Desta forma, a espoleta e seu assentamento (profundidade principalmente) diferem bastante das .308 onde a previsão seria de rifles de ferrolhos com grande intervalos entre um tiro e outro. A ação do percussor em uma arma automática ou semi ocorre de forma muito mais agressiva que as demais armas, sendo por isso que encontramos espoletas diferentes. Outro ponto é a forma de alimentação que exige cartuchos mais resistentes em armas semi e auto, pois os mesmo não são inseridos e extraídos de forma tão gentil como em uma arma de ferrolho. Fora o fato que as armas militares estão sujeitas a trabalhar sem limpeza por grandes períodos, o que influenciou na concepção do cartucho para trabalhar em condições de armas sujas.
Existe a questão da diferença de pressão dos referidos cartuchos. Como as paredes do 7,62 são mais grossas, a capacidade volumétrica é menor e a recarga com igual quantidade de pólvora de um cartucho 308 win levará a pressões muito superiores na câmara. E por outro lado, não que obrigatoriamente um cartucho de 308 win comercial tenha como padrão uma pressão superior ao 7,62 Nato, mas a especificação dos mesmos aponta um possível pressão de trabalho maior (até 62.000psi) , o que acrescentando-se às diferenças de Headspace denotam a necessidade de grande precaução no uso destas (308 WIn) em armas 7,62. Na verdade o contrário é observado, os cartuchos comerciais, por medida de mitigação de risco (o fabricante não quer ser processado por um caçador furioso que teve sua arma "explodida") costumam apresentar pressões menores e as munições militares costumam ser mais "quentes".
Outra influência da diferença de dimensões de câmara e espessura menor do 308 win (e portanto menos material) é que usando uma carga "quente" de 308 Win em uma arma 7,62 pode faltar material para a expansão do referido cartucho, levando à rupturas do mesmo.
Caso reste alguma dúvida sobre as dimensões expostas pelo Marcello, acredito que o diagrama abaixo é de grande valia.

A linha pontilhada é onde encontramos o Headspace no "ombro" do cartucho.

CALIBRE .40 S&W

CALIBRE .40 S&W
Uma abordagem técnica

Elaborado por:
Antonio Benício de Castro Cabral – AFRF – DRF/Belo Horizonte-MG
Benedito Pereira da Silva Júnior – AFRF – DRF/Piracicaba-SP



Junho de 2003


1) INTRODUÇÃO

Primeiramente, traremos alguns conhecimentos básicos sobre pistolas semi-automáticas, munições e projéteis, bem como algumas particularidades do estudo da balística. Mostraremos os calibres de armas curtas mais utilizados para defesa pessoal e demonstraremos a importância do conceito de “poder de parada” (stopping power) no enfrentamento de uma agressão. E finalizando, teceremos alguns comentários sobre o instituto da legítima defesa.
O assunto é extremamente complexo, abrangendo várias disciplinas, como a Física, a Química e a Medicina Legal, entre outras, passando também pela ciência do Direito. Longe estivemos da pretensão de esgotar o assunto. Nossa idéia, motivada pela necessidade prática, foi a de, tão somente, contribuir para uma maior profissionalização do Auditor-Fiscal da Receita Federal – e por que não dizer, para sua sobrevivência, em uma sociedade cada vez mais armada e violenta.
As armas de fogo têm sido encaradas pela mídia, e pelas pessoas ingênuas e facilmente manipuláveis, como instrumentos do mal, e, por extensão, quem utiliza armas de fogo também se inclui nesta classificação. Como alguém já disse, armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas. Em mãos treinadas e conscientes, as armas se tornam instrumentos indispensáveis na sociedade moderna, principalmente nas grandes cidades. Gostaríamos que assim não fosse, mas o recrudescimento da criminalidade em nossos dias não nos deixa escolha: ou assumimos coletivamente que o Estado nos autoriza a portar armas, e exercemos este direito de modo consciente e técnico, ou ficamos à mercê daqueles que andam à margem da lei.
Se necessitamos utilizá-las, que o façamos dentro da técnica e de uma doutrina que esperamos estar ajudando a formar. Doutrina onde não há espaço para o erro, para falhas e imperfeições.
Esperamos que o presente trabalho, além de aumentar os conhecimentos dos membros da categoria sobre o assunto, contribua para a liberação do calibre .40 S&W, munição de elevado grau de eficiência, conforme acreditamos restar comprovado ao final deste trabalho.
Rogamos ainda que todos compreendam a importância do tiro dinâmico [ou policial] e seu treinamento, na atividade fiscal e na defesa de seus familiares.
É o que nos propomos com este trabalho.

2-) PISTOLAS SEMI-AUTOMÁTICAS – ORIGEM E BREVE HISTÓRICO
Pistola Colt Government Modelo 1911 A1 em calibre .45 ACP
As chamadas “armas curtas”, aquelas que podiam ser portadas e utilizadas por um só homem, tiveram sua origem nas armas longas e coletivas. A evolução se deu de maneira que, cada vez mais, as armas pudessem ser individuais.
Apesar de, até certo ponto na história das armas de fogo, as armas curtas serem apenas uma “miniaturização” das armas longas, ou seja, possuírem ambas os mesmos elementos, como cano, fechos e outros, muito semelhantes, houve um momento em que as armas longas e curtas seguiram caminhos diferentes, cada qual com sua evolução própria, em virtude de suas finalidades distintas.
Desde que o homem desenvolveu o primeiro “canhão de mão”, iniciou a busca da arma ideal, que pudesse ser facilmente portada, e que desse muitos disparos (tiros) sem a necessidade de ser recarregada repetidamente. Desta busca nasceram os dois tipos principais, hoje existentes, de armas curtas: o revólver e a pistola semi-automática.
Os revólveres sobrevivem até nossos tempos devido a excelentes qualidades que os fazem armas robustas, aptas para o uso diário e extremamente confiáveis. Derivam de um modelo da firma norte-americana Smith & Wesson, que desenvolveu o revólver de tambor reversível (de “abrir para o lado”), à época da criação e popularização do calibre .38 SPL, de cartucho metálico, apropriado para a chamada retro-carga.
A outra classe de arma curta que merece nossa maior atenção, devido ao escopo deste trabalho, é a das pistolas semi-automáticas. Com a criação dos cartuchos metálicos de fogo central, e com os avanços na fabricação de novas pólvoras e munições, foi possível a criação de uma arma de repetição que utiliza a força dos gases produzidos na detonação, aplicando o princípio da igualdade entre ação e reação para realizar, automaticamente, as operações de extração do estojo deflagrado, ejeção deste para fora da arma, alimentação da câmara da arma com novo cartucho e engatilhamento do mecanismo de disparo.
As primeiras armas semi-automáticas surgiram graças à criação do aludido cartucho metálico. Andres Schwarzlose propôs, em 1893, uma pistola automática, que utilizava o movimento do cano para o mecanismo de repetição e, ainda que não tenha sido produzida, seu sistema adaptou-se a metralhadoras que foram utilizadas na Primeira Guerra Mundial.
A primeira pistola semi-automática que alcançou fama mundial, embora não tivesse sido comercializada em grande escala, foi desenhada pelo norte americano Hugo Borchardt, que, na Alemanha, trabalhando por contrato para a empresa Ludwig Loewe, a comercializou em 1893.
Esta arma já dispunha de carregador separado, no cabo, com capacidade para oito cartuchos da munição 7,65 mm, que, mais tarde, daria origem ao 7,63 mm Mauser. A arma de Borchardt foi a predecessora da famosa Luger, sendo esta, de fato, foi uma atualização daquela.
Outro importante inventor foi o alemão Teodoro Bergmann, que em 1893 patenteou seu primeiro modelo de pistola semi-automática. Na Espanha, uma pistola chamada Bergmann-Bayard, produzida em 1891, já dispunha de carregador separável.
Outro marco na história da evolução das pistolas é a alemã Mauser C-96, uma preciosidade mecânica que serve de modelo de funcionamento até para os padrões atuais.
Nos EUA, John Moses Browning desenha sua primeira pistola em 1889. George Luger, outro alemão, produziu a P-08 (Parabellum 1908), verdadeiro mito, baseado na arma de Borchardt. Esta arma foi amplamente utilizada nos dois primeiros conflitos mundiais.
Em 1911, o Exército dos Estados Unidos adota, em substituição ao revólver, como arma de coldre, a pistola de desenho Browning, em calibre .45 ACP, fabricada pela Colt, denominada “Colt Government Model” (foto acima), considerada, também, modelo de mecanismo para pistolas atualmente produzidas.
A Inglaterra adota em 1913 a Webley-Scott MK I, e, em 1915, a Beretta italiana torna-se arma regulamentar do exército da Itália, popularizando de vez o calibre 9 mm Parabellum.
Posteriormente, a Alemanha substitui a Luger P-08 pela Walther P-38, a primeira a utilizar o sistema de dupla ação em seu mecanismo (Sistema que permite que as armas possam ser acionadas sem prévio engatilhamento, ou popularmente falando, sem precisar armar o cão).
As pistolas semi-automáticas têm demonstrado, na prática, serem armas de combate e defesa por excelência, não ocorrendo por acaso a substituição gradual do revólver por esse tipo de arma curta.
Atualmente, fabricantes de pistolas como Glock e Sig-Sauer, Heckler & Koch e as nacionais Taurus e Imbel, nos mostram que esta classe de arma tende a substituir de vez o revólver, tanto na atividade policial quanto na defesa pessoal.

3-) MUNIÇÕES
As armas de fogo só foram possíveis graças à invenção da pólvora; por sua vez, somente chegamos ao nível atual de avanço tecnológico com a invenção do cartucho metálico. Unidade de munição das modernas armas de fogo, possibilita seu emprego tático onde se deseja grande número de disparos no menor espaço de tempo. Sem ele, seria impossível existirem novos sistemas de operação, assim como não haveria as armas semi-automáticas e automáticas.
O cartucho metálico reúne, em si só, todos os elementos necessários ao tiro. Foi elaborado de modo a ser introduzido diretamente na culatra da arma para a qual é destinado, de modo manual ou mecânico.

O cartucho de munição possui os seguintes componentes, comuns a todos os tipos: o projétil (1), o estojo (3), a carga de projeção (2) e a espoleta (4), com sua carga iniciadora. Nada mais é do que a reunião dos elementos necessários à alimentação da arma, em um único corpo. Sua finalidade é a de proteger os seus componentes, oferecendo segurança ao operador da arma.


4-) O PROJÉTIL
Exemplo de projétil semi-jaquetado ponta oca
O projétil é o artefato, metálico ou não, que é expelido pela arma de fogo; é o principal e mais crítico elemento da munição. Seu tipo, forma e massa, vão determinar, juntamente com a pólvora, os maiores ou menores efeitos balísticos ou lesivos da munição.
Inicialmente concebidos no formato esférico, de diversos materiais, deram lugar aos projéteis ogivais, de melhor perfil aerodinâmico, podendo ser de chumbo ou encamisados (dotados de uma jaqueta metálica externa).
Deixaremos de tecer maiores comentários quanto aos demais componentes do cartucho de munição, por não serem relevantes para o objetivo deste trabalho. Mais adiante, estudaremos em profundidade o projétil, no tocante aos calibres utilizados para defesa pessoal, visto sua importância e a necessidade de conhecê-los, para melhorar o emprego tático do conjunto arma/munição.


5-) NOÇÕES DE BALÍSTICA TERMINAL

Denomina-se balística terminal, ou de efeitos, aquela parte da balística que se preocupa com os efeitos do projétil no seu impacto contra o alvo.
Diversos são os efeitos dos projéteis em seu ponto de chegada, dependendo de sua trajetória, das influências externas sobre a mesma, bem como do tipo de estrutura do alvo (se de madeira, metal, tecido humano, etc.), o que vai determinar seus maiores ou menores efeitos.
Peso de cargas de projeção e de projéteis
Aquele que inicia o estudo do tiro, e de assuntos a ele relacionados, freqüentemente se depara com uma unidade de medida padrão nos EUA, utilizada para medição de peso da pólvora e de projéteis, unidade esta sem equivalente no Brasil: o “grain”.
Um “grain” equivale a 0,0648 de grama; 7000 “grains” equivalem a uma libra de peso. Utiliza-se esta unidade de medida, em virtude do baixo peso que apresentam as cargas de projeção e os projéteis.
Como exemplo, seguem algumas cargas e pesos de projéteis para o calibre .38 SPL:

Tipo de Projétil Peso (Grains) Carga (Grains) Tipo de Munição
Canto-Vivo 148 gr 2,8 gr Tiro ao alvo
Semi Canto-Vivo 158 gr 4,1 gr Standard
Semi encamisado, ponta oca 125 gr 5,5 gr + P
Encamisado Total, ponta oca 140 gr 5,6 gr + P

O parâmetro + P designa uma munição mais potente do que a padrão (standard), e será abordado em pormenores mais adiante, em tópico específico.
“Stopping power”, ou poder de parada
Apesar de tratarmos especificamente sobre o poder de parada em tópico específico dedicado somente a esse tema, em outro ponto deste trabalho, é necessário que se compreendam os conceitos básicos deste tão polêmico assunto, que tem proporcionado verdadeiras “batalhas campais” entre os mais renomados expertos no tiro policial e defensivo.
O termo “stopping power”, que pode ser traduzido como poder de parada, foi criado pelos norte-americanos para expressar a relação entre calibre e incapacitação efetiva de um oponente com um só disparo, impedindo que o mesmo continue sua ação. A obtenção de um bom poder de parada é essencial para o exercício da defesa pessoal, onde se busca não matar, mas sim incapacitar o oponente. O “stopping power” deriva da capacidade que um projétil tem de descarregar sua energia cinética real sobre o alvo, imediatamente após o impacto.
Para aqueles que têm uma visão mais agressiva, de que se deve sempre tentar exterminar o oponente, em um embate armado, cabe destacar que, antes de morrer, uma pessoa movida pela epinefrina pode causar muitos danos no pouco tempo de sobrevida. Conseqüentemente, o conceito de poder de parada, além de afastar a desumana idéia de morte a qualquer custo, ainda traz consigo o correto e atualizado ponto de vista de afastar o perigo.
O “stopping power”, a despeito de inúmeras experiências realizadas, é um valor que, graças à individualidade biológica própria de cada organismo vivo, é relativo, não se podendo afirmar que este ou aquele conjunto arma/munição é eficaz 100% das vezes em que for utilizado, pois cada organismo reage de modo diferente ao ser atingido. O que se pode ter é um parâmetro baseado em estatísticas, como veremos mais adiante.
Efeitos primários dos projéteis
O projétil, ao penetrar o corpo humano, provoca dois tipos básicos de ferimentos, que determinam seu poder de parada.
O primeiro, conhecido como canal de ferida permanente, é o efeito lesivo que o projétil provoca ao romper os tecidos, e é observável após o disparo.
O segundo é denominado cavidade temporária. É produzido pelo intenso choque provocado pelo projétil na massa líquida dos tecidos. Mais difícil de ser observado (tanto que os médicos apenas admitiram sua existência recentemente), consiste em uma grande cavidade aberta apenas por frações de segundo, devido à elasticidade dos tecidos e ao choque hidrostático, chegando a ser muitas vezes superior ao diâmetro do projétil e ao canal permanente. Segundo os especialistas, é este segundo tipo de ferimento o responsável pelo poder de parada.
Cavidade temporária em gelatina balística, um composto de textura semelhante aos tecidos humanos. Atentar para a diferença entre o diâmetro inicial da cavidade (à esquerda) e o diâmetro do projétil (embaixo, à direita).

A obtenção do “stopping power” deve ser o objetivo do atirador: incapacitar um agressor com um mínimo de disparos, sempre buscando atingir área em seu corpo onde o projétil vá causar o imediato colapso do oponente, visando com que este cesse o risco de vida que oferece ao atirador ou a terceiros.


6-) CALIBRES MAIS UTILIZADOS PARA DEFESA PESSOAL
Quando ouvimos falar de uma determinada munição, muitas vezes nos perguntamos: será esse calibre bom para a defesa? quando alguém diz que o calibre .22 LR é bom para defesa, estará ele sendo coerente? e quanto à pistola no calibre 7,65 mm, é recomendável usá-la para nossa defesa e de nossos familiares? Quando, na Receita Federal, é comentado sobre o calibre .40 S&W, o que temos a dizer sobre ele? e o .45 ACP? é tão bom assim? se é tão bom, por que o Exército o trocou pelo 9 mm Parabellum?
Embora a legislação brasileira atual não permita a nós, Auditores-Fiscais da Receita Federal, alçar grandes vôos no tocante a calibres de última geração, nem quanto ao armamento correspondente, isso não impede que no exercício de nossas funções legais nos deparemos com armas cujos calibres não são permitidos a civis. Vamos citar aqui alguns dos calibres mais importantes para defesa com armas curtas.


Calibre .22
É considerada a mais antiga munição de cartucho metálico do mundo, com fogo circular (1845). Surgiu de experiências européias na busca de munições para o tiro ao alvo, em recintos fechados, na primeira metade do século XIX.
Já o primeiro revólver a calçar o .22 Curto foi um Smith & Wesson “N° 1”, americano, concebido especialmente para a pioneira munição de estojo metálico.
O calibre .22 não foi concebido para produzir resultados balísticos excepcionais, mas sim para utilização no tiro informal, ou para a prática de tiro ao alvo, em competições com distâncias de alvos não superiores a 50 metros, além da caça de pequenos animais. Dentro desse horizonte, alcançou um nível de qualidade e precisão ainda não suplantado por nenhum outro calibre (exceto os calibres recarregados profissionalmente).
O .22 Short (curto) foi criado em 1857, utiliza projétil ogival de 29 “grains” de peso, e é fabricado até hoje em todo o mundo.
O .22 LR (Long Rifle), criado nos EUA, inicialmente apenas para fuzis (rifles), possuindo projétil de 40 “grains”, é hoje considerado a mais precisa munição calibre .22 de fogo circular.
O .22 Magnum foi lançado em 1959 pela Winchester (EUA), sendo a mais poderosa munição .22 de fogo circular. Na realidade um novo calibre, e não um “.22 com cartucho alongado”. Pela sua performance, gerou extensa linha de armas destinadas a calçar tal calibre.
Nos EUA, de cada 10 cartuchos disparados, 5 ou 6 são de calibre .22. Sendo uma munição de baixo custo, é indicada para iniciantes no esporte do tiro.
Para caça, do ponto de vista balístico, não é a munição mais indicada, porém cumpre bem a função pelo baixo custo, com a precisão ligada diretamente à qualidade da arma que a calça. Com o advento dos aparelhos ópticos de pontaria (lunetas) para os calibres .22 LR, a precisão teve um grande incremento para a caça até razoáveis distâncias.
O alcance da munição .22 LR é de 1,5 milha ou 2.400 metros (aproximadamente), exigindo, portanto, muito cuidado no tiro informal ou na caça de pequenos animais, pela possibilidade de transfixação do alvo.
O calibre .22 tem como principal desvantagem a irregular distribuição da massa iniciadora (espoleta) ao redor de seu culote, que nem sempre é 100% percutida. Quando isto ocorre, basta girar o cartucho na câmara da arma para que a percussão se dê em outro ponto do culote, mas apenas em sessões informais de tiro. Numa situação de defesa tal ato é completamente inviável.
A fragilidade do cartucho traz como conseqüência deformações no seu corpo quando manuseado inadequadamente em armas semi-automáticas, acarretando com isso problemas de alimentação.
Outra característica deste calibre é o pequeno impacto causado pelo projétil contra um ser humano. A sua velocidade, aliada ao baixo peso do projétil, gera um impacto insuficiente para interromper imediatamente uma ação ofensiva, excetuando-se um impacto certeiro em pontos vitais.
Em termos de defesa, foi aperfeiçoado com o lançamento dos cartuchos de 3ª geração, além do .22 Magnum, que possuem maior possibilidade de gerar grandes traumatismos aos órgãos atingidos, devido à alta velocidade de deslocamento do projétil.
É adequado o uso de um revólver ou pistola, neste calibre, para defesa? O cartucho na configuração permitida pela legislação brasileira (.22 LR) não é aconselhável para defesa pessoal, mas se fosse possível a utilização legal do .22 Magnum com projétil de ponta-oca, este seria sim um cartucho razoável para defesa, pois sua balística se aproxima do .38 SPL, devido à alta velocidade do projétil.

CALIBRE PESO DO PROJÉTIL VELOCIDADE
.22 LR STANDARD 40 grains 290 m/s
.22 LR 3ª GERAÇÃO 32 grains 436 m/s
.22 MAGNUM 40 grains 451 m/s

Calibre 6,35 mm Browning (.25 ACP)

O calibre 6,35 mm foi criado pelo armamentista John Moses Browning junto à Fabrique Nationale de Armes de Guerre (FN), de Herstal, Bélgica, em 1906, para uso em uma supercompacta pistola de defesa.
Nos EUA o calibre foi introduzido em 1908, utilizando-se a medida de diâmetro de seu projétil em centésimos de polegada, acrescido das letras ACP (Automatic Colt Pistol), tornando-se então conhecido como .25 ACP ou .25 Auto.
Na Europa, nas décadas de 20, 30 e 40, era comum cavalheiros e até damas portarem pequenos revólveres ou pistolas nesse calibre em seus bolsos, bolsas e até nos grandes calções de banho dos policiais daquela época, durante seus passeios e atividades.
No Brasil disseminaram-se pequenas armas nesse calibre, de origem alemã e espanhola, até a década de 50, sendo que até hoje esse cartucho é fabricado pela CBC.
Quando criado, buscou-se o mínimo em termos de portabilidade e eficiência, com funcionamento simples e seguro.
Pelo baixíssimo “stopping power” (poder de parada) gerado pelo calibre, não cabe analisar a viabilidade de se portar uma arma no calibre 6,35 mm para defesa, pelo fato de que ele foi concebido para ser utilizado em última instância, ou como 2ª arma.
Seu uso é útil de 2 a 5 metros, o que podemos chamar de “combate a curta distância”, quase como um corpo-a-corpo. É o calibre mais fraco em termos de energia, sendo desaconselhável a sua utilização para qualquer fim, pelo seu fraco desempenho. Ademais, as armas criadas para esse calibre, normalmente pistolas semi-automáticas extremamente compactas, não trabalham com o conceito de precisão, como é o caso do .22.
A sua destinação a armas extremamente compactas tem como vantagem o porte discreto, chegando a serem usadas como a arma reserva da arma reserva. As armas calibre 6,35 mm têm como característica o fácil manuseio e pequeno recuo, indicadas para iniciantes pouco familiarizados com o tiro.

DIÂMETRO DO PROJÉTIL .251”
ESPOLETA SMALL PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 19.900 c.u.p. (Cooper Units of Pressure)
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 23,11 mm


Projétil Calibração Peso em grains Veloc. ft/s Veloc. m/s
ETOG/BC .251” 50 760 232
ETOG/BC = Projétil totalmente encamisado, formato ogival, base côncava.

Calibre .32 S&W

Também conhecido como .320, foi criado por volta de 1860 nos EUA, na configuração “Rim Fire” (fogo circular), ou seja, sem espoleta central no culote do cartucho.
Dez anos após a sua invenção, os ingleses desenvolveram o calibre, rebatizado de .320, agora de fogo central, especificamente para revólveres produzidos pelas firmas Webley e Tranter. Com o advento de sua nova configuração (fogo central), o calibre disseminou-se pela Europa, passando a ser fabricado em diversos países. Os cartuchos em fogo central, no caso o .32 S&W (curto) e o .32 S&W Long, são fabricados até hoje e ainda mantêm um bom índice de vendas.
Há 40 ou 50 anos, as armas nos calibres .32 S&W Short ou .32 S&W Long representavam a maioria daquelas utilizadas, tanto para a defesa quanto para o uso policial, devido ao fato que o .38 era ainda considerado “demasiadamente potente e pesado”.
O calibre .32, ao atingir um ponto vital do corpo humano, é tão letal quanto qualquer outro calibre. Tratando-se de pontos vitais, não existe “calibre que mata mais ou calibre que mata menos”.
Hoje, o calibre .32 é considerado inadequado para fins de defesa, pela pouca capacidade que tem de transferir energia ao atingir o alvo. Presta-se mais para sessões informais de “plinking” (tiro em pequenos alvos, como latas de tinta e que tais).

DIÂMETRO DO PROJÉTIL .309”/.312”
ESPOLETA SMALL PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 13.900 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 23,62 mm


Projétil Calibração Peso em grains Veloc. ft/s Veloc. m/s
CHOG/BC .312” 85 680 207
CHOG/BC = Projétil de chumbo, ogival, base côncava.

Calibre 7,65 mm Browning (.32 ACP)

Criado por John M. Browning em 1895, teve sua primeira utilização em uma pistola semi-automática fabricada pela FN (Fabrique Nationale de Armes de Guerre) belga.
Como na Europa já existia, havia muito tempo, a limitação por parte de diversos países quanto à utilização de calibres superiores ao .32 (ou 7,65 mm), esse calibre obteve grande aceitação por parte da população, pois calibres maiores eram considerados de uso policial ou militar, ou seja, eram considerados calibres potentes.
Em 1903, a Colt lançou nos EUA a primeira pistola no calibre, denominada Colt Pocket Model, alterando então o nome do calibre para .32 ACP (Automatic Colt Pistol).
Durante a 1ª Guerra Mundial (e até mesmo na 2ª), o 7,65 mm chegou a ser empregado como munição militar por alguns países e foi largamente utilizado por Oficiais Alemães como calibre de suas armas de porte. As armas no calibre 7,65 mm foram também muito utilizadas como “back-up gun” (arma reserva) por serem, tipicamente, armas de pequeno porte.
Utiliza projéteis com peso de 60 a 80 “grains”, considerados muito leves para defesa pessoal, gerando um baixo poder de parada, tendo em vista a velocidade desenvolvida após a queima total da pólvora.
Cartuchos fabricados hoje pela CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), com projéteis de 71 “grains” (4,6 g) desenvolvem 905 pés/seg (276 m/s) atingindo 175 Joules de pressão, quando medidos em provetes de 4 polegadas de comprimento de cano. Podem ser utilizados em qualquer arma de boa procedência e em bom estado de conservação.
DIÂMETRO DO PROJÉTIL .309”/.313”
ESPOLETA SMALL PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 19.900 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 24,99 mm


Projétil Calibração Peso em grains Veloc. ft/s Veloc. m/s
ETOG/BC .311” 71 905 276
ETOG/BC = Projétil totalmente encamisado, formato ogival, base côncava.
Calibre .380 ACP
Foi lançado na Europa pela FN (Fabrique Nationale de Armes de Guerre – Herstal, Bélgica) em 1902 e chegou a ser utilizado como munição militar na Alemanha e Itália, nas armas de porte dos Oficiais.
Com um “stopping power” cerca de 20% superior ao calibre .32, ainda é munição padrão de algumas forças policiais na Europa, devido à grande portabilidade das armas que a utilizam.
Trabalha com pressões semelhantes às do .38 Special, porém, devido ao binômio “baixo peso do projétil X pequena carga de pólvora”, não chega a causar igual impacto no alvo, apesar de desenvolver velocidade superior. Encontra-se no limiar entre os calibres “aceitáveis” para defesa e os calibres ineficientes.
Em 1987, o Ministério do Exército, através da Portaria n° 1237, incluiu o calibre .380 ACP e as armas que o utilizam na classificação de “armas de uso permitido”, acessíveis ao civil, causando sensação devido à novidade no mercado brasileiro. A utilização para defesa pessoal não é recomendada, pela baixa transferência de energia do projétil ao alvo.
Na Europa é conhecido como 9 mm Browning Short ou 9 mm “kurz” (curto).

DIÂMETRO DO PROJÉTIL .355”/.356”
ESPOLETA SMALL PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 18.900 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 24,99 mm


Projétil Peso Velocidade
FMJ/BP 90 grains 302 m/s
SEPO/BP 95 grains 290 m/s

FMJ/BP – Projétil totalmente encamisado de base plana.
SEPO/BP – Semi-encamisado de ponta oca, base plana.

Calibre .38 SPL (Special)
No decorrer da Guerra Civil Norte-Americana foram desenvolvidos diversos cartuchos de fogo circular para armas de retrocarga, tendo sido criado até o calibre .58”. Em 1865, com o fim da guerra, buscou-se um calibre que permitisse a sua utilização em armas curtas, chegando-se então ao calibre .38, lubrificado externamente e carregado com pólvora negra.
Os primeiros cartuchos da família .38 de fogo central mantinham o diâmetro de .380”, até que em 1875, com o lançamento do .38 Long Colt, o diâmetro foi alterado para .357/.358” (9,04 a 9,09 mm). Essa medida, na verdade, está muito longe de ser um .38” (9,65 mm), mas, apesar disso, foi mantida a denominação original de calibre .38.
Em 1902, a Smith & Wesson (EUA) lançou no mercado o calibre .38 SPECIAL, que se tornou um dos calibres mais populares do mundo, projetado para ser utilizado em seu revólver Military & Police. Hoje o calibre .38 SPL, mais conhecido como 38, é largamente utilizado pelas polícias no Brasil. Essa utilização não significa que seja o melhor calibre para uso policial ou defesa. Foi popularizado pelo baixo custo e por ser considerado, à época de sua adoção, um calibre razoável para defesa. Mesmo com o advento de novos calibres, perdura ainda quase que uma padronização deste diâmetro no meio policial.
Calibre .38 SPL + P

A munição .38 SPL + P (“plus power”, “plus pressure”, mais força, mais pressão) é um desenvolvimento natural do calibre .38 criado no início do século passado.
A munição + P é aquela que opera com pressões acima do padrão do calibre, mas ainda dentro da margem de segurança estipulada pelos fabricantes de armas.
Em 1974, o Instituto de Fabricantes de Armas e Munições Esportivas (S.A.A.M.I.) dos EUA normatizou a nomenclatura “+ P” de acordo com as características técnicas de cada calibre. O calibre .38 opera a um teto de 18.900 c.u.p. (Cooper Units of Pressure) sendo que o teto estabelecido para o .38 SPL + P é de 22.400 c.u.p. Armas de boa procedência com manufatura recente e robusta podem utilizar tal munição, porém seu uso constante ou excessivo acarreta um desgaste prematuro da arma. Os revólveres TAURUS calibre .38 SPL fabricados a partir de setembro de 1988, cujos números de série são iniciados pelas letras HI, bem como os revólveres ROSSI fabricados a partir de janeiro de 1979, são dimensionados para atuar com munição .38 SPL + P, devido a alterações efetuadas na dureza de seus tambores.
É importante frisar que o uso contínuo de munição + P pode reduzir a vida útil da arma que a utiliza, em especial aquelas de pequenas dimensões, podendo exigir ajustes periódicos em seu mecanismo.
Com o maior recuo da arma, decorrente da maior potência do cartucho, é aconselhável que o atirador efetue prévio treinamento com tal munição, adequando inclusive o ponto de visada (armas de mira fixa) ou regulando o seu sistema de pontaria (miras reguláveis).

Calibre .38 SPL + P +

O conceito + P foi levado ao extremo quando foi fabricada em uma escala limitada, para órgãos de segurança norte-americanos, uma munição .38 SPL denominada + P +, que atua na faixa dos 25.000 c.u.p. Essa pressão atua muito próximo do limite suportável por uma arma calibre .38, de médias dimensões. O resultado obtido em ganho de energia e velocidade não é compensatório, se levarmos em conta os riscos decorrentes de sua utilização, a não ser quando empregadas em armas no calibre .357 Magnum. Encontrada no comércio, sua utilização requer os mesmos cuidados, quanto ao tipo de arma que irá recebê-lo, a serem observados para o uso do .38 SPL + P.

.38 SPL .38 SPL + P .38 SPL + P +
DIÂMETRO DO PROJÉTIL .357”/.358” .357”/.358” .357”/.358”
ESPOLETA SMALL SMALL SMALL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 18.900 c.u.p. 22.400 c.u.p. 25.000 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 39,37 mm 39,37 mm 39,37 mm


Projétil Peso Veloc. m/s Veloc. ft/s Energia lb/ft
.38 SPL 158 grains 274 900 200
.38 SPL + P 125 grains 283 930 275
.38 SPL + P + 90 grains 301 990 296



Calibre .357 MAGNUM





Lançado juntamente com um revólver de armação pesada fabricado pela Smith & Wesson, o calibre .357 Magnum surgiu no mercado americano em 1935, desenvolvido pela Winchester CO. em parceria com a Smith & Wesson, buscando alcançar um desempenho elevado em termos de balística, trabalhando na faixa de 42.500 c.u.p. Possui um cartucho alongado em .14” (3,56 mm) em relação ao estojo do .38 SPL, visando impedir a sua introdução em tambores de revólveres .38”.
Normalmente carregado com pólvora de base dupla, utiliza espoletas de maior poder iniciador, do tipo “Small Pistol Magnum”.
Considerado um excelente calibre para defesa, é utilizado por Oficiais da PM e por pequenos grupos especializados das polícias civis e militares, mas seu uso requer critério e bom senso. Sendo uma munição de alta potência, tem grandes chances de atingir outro alvo, além do desejado. Sua enorme potência pode acarretar conseqüências indesejadas quando utilizada em locais com grande público, ou contra obstáculo de baixa resistência, como paredes de madeira etc. A menos que se utilize um projétil altamente expansível e deformável, este transporá o alvo, atingindo outros mais adiante. Produz, como conseqüência, um grande recuo, o que dificulta o seu uso por pessoa não habilitada.

Calibre .357 Maximum


Oriundo da parceria entre Remington e Sturm, Ruger & CO., (1983) utiliza o cartucho .357 Magnum alongado em .300”, capaz de operar na faixa de 50.000 c.u.p., ou seja, semelhante à potência obtida por calibres de fuzis.
Devido ao excesso de potência, quando utilizado em revólveres apresenta um fenômeno de erosão no cone de forçamento dos canos (parte inicial do cano do revólver, próximo ao tambor) e na parte superior da armação (“gas cutting” ou corte pelos gases da pólvora), apresentado na primeira centena de tiros, reduzindo rapidamente a vida útil da arma.
Superior em potência ao .357 Magnum, é inviável o seu uso para fins policiais/defensivos. É muito utilizado nos EUA para o tiro à silhueta metálica, que demanda grande energia.


Projétil Peso do Projétil Veloc. m/s Energia lb/ft
.357 Magnum 158 grains 376 535
.357 Maximum 158 grains 556 1168





Calibre 9 mm Luger (9 mm Parabellum)



“Se Vis Pacem Para Bellum” – Se queres a paz, prepara-te para a guerra. Cartucho criado pela DWM da Alemanha, em 1902, para utilização na pistola militar Luger, passou a ser utilizado posteriormente por toda a Marinha e Exército alemães.
Pelas suas características, é o cartucho para armas automáticas e semi-automáticas que obteve a maior aceitação pelas forças militares e policiais do mundo. Destaca-se a alta velocidade de seu projétil aliado ao pequeno tamanho do cartucho, que possibilita a utilização de carregadores de grande capacidade em armas compactas. Esta particularidade fez nascer nos EUA o conceito “wondernine”, que nada mais é do que a exaltação das pequenas pistolas nesse calibre, com carregadores de alta capacidade, classificadas então como armas de grande poder de fogo.
O cartucho 9 mm Luger, quando utilizado com projétil ogival, totalmente encamisado, possui bom poder de penetração, porém com pequena deformação, reduzindo o seu poder de parada. Já com projéteis modernos, do tipo ponta oca (EXPO), ou especiais (Glaser, Silvertip, Black Talon – projéteis norte-americanos), o seu poder de parada aumenta consideravelmente, pelo aproveitamento da grande velocidade do projétil, que ao chocar-se com o alvo deforma-se mais facilmente.
Tais características levaram o calibre 9 mm Luger a ser adotado por diversas forças armadas em substituição ao calibre .45 ACP, a exemplo do Brasil, e até mesmo nos EUA, que utilizavam o .45 ACP pelas suas características peculiares e inclusive pela tradição, mas que ocupava muito espaço nos carregadores das armas.
As polícias brasileiras utilizam este cartucho há vários anos nas suas submetralhadoras (Taurus MT 12A, Heckler & Koch MP5A, etc.) e pistolas (Taurus PT 92 – 15 tiros), fazendo uso do cartucho fabricado pela CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos).
O 9 mm só é considerado um bom calibre para defesa quando utilizado com projéteis deformáveis, caso contrário ele transforma-se em um bom “perfurante”, muitas vezes transmitindo o resto de sua energia inicial contra uma parede, um carro ou uma vítima inocente, após atravessar o 1° alvo.

DIÂMETRO DO PROJÉTIL .354”/.356”
ESPOLETA SMALL PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 35.700 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 29,69 mm


Projétil Peso Veloc. m/s Veloc. ft/s
ETOG 115 grains 346 1135
SEPO 115 grains 354 1160



Calibre 10 mm Automatic

É um calibre que surgiu no final da década de 70, inspirado pela busca de algo que se colocasse entre a alta velocidade com trajetória tensa do 9 mm Luger, e a baixa velocidade com maior peso e diâmetro do .45 ACP.
Juntamente com o calibre, foi criada uma pistola para calçá-lo, de nome BREN TEN, fabricada pela empresa Dixon & Dornaus, a qual, devido ao fracasso da arma, faliu dois anos após seu lançamento. O calibre ressurgiu graças à fábrica COLT, que lançou a pistola DELTA ELITE, onde o calibre ganhou força comercial, gerando então lançamentos de outros fabricantes, como a GLOCK, SMITH & WESSON, SPRINGFIELD ARMORY, etc.
Apesar de ser um calibre sem repercussão nos meios militares e policiais, o FBI (EUA) fez estudos e ensaios com a finalidade de adotar o 10 mm como padrão para uso em serviço, mas tal cartucho demonstrou ser demasiadamente potente, gerando forte recuo e estampido. Trazendo dificuldade inclusive na recuperação da visada no segundo tiro, o calibre 10 mm foi “abrandado” utilizando projéteis mais leves, disparados a velocidades mais baixas, chegando a uma balística semelhante à do calibre .45 ACP, adequado à função policial e para defesa pessoal.

Projétil Comprimento do Cartucho Peso Velocidade
Ponta Oca 31,98 mm 170 grains 427,5 m/s
FMJ 30,23 mm 200 grains 368,1 m/s
FMJ – Full Metal Jacket (Projétil totalmente encamisado).

Calibre .41 AE (Action Express)

Surgiu em 1863 com a finalidade de ser utilizado em uma pistola de tiro único (“derringer”) de retrocarga. Era conhecido como .41 Short (curto) e possuía fogo circular, ou seja, a espoleta era semelhante à dos atuais calibres .22.
Foram desenvolvidos diversos tipos de cartuchos nesse calibre, chegando aos nossos dias na forma dos cartuchos .41 S&W Magnum, em 1964 e .41 AE (Action Express), lançado em 1986.
O .41 AE foi criado para ser utilizado em armas originariamente dimensionadas para calçar o calibre 9 mm Luger, com kit de conversão para o calibre .41, possuindo o aro rebatido, ou seja, as dimensões de sua base são idênticas ao cartucho 9 mm. Tal característica se traduziu em descrédito por parte dos atiradores, que julgaram que o cartucho teria problemas de extração na arma.
Com o lançamento dos cartuchos 10 mm e .40 S&W, o calibre .41 tem o seu futuro ameaçado. Atualmente é fabricada pela IMI (Israel) uma excelente pistola, de nome JERICHO, no calibre .41 AE, com kit de conversão para 9 mm Luger.

PROJÉTIL PESO VELOCIDADE
FMJ 200 grains 304 m/s

Calibre .44

Apesar de já ser utilizado em diversas armas curtas nos anos de 1864/65, como em pistolas de tiro único, sendo produzido na época com cartuchos de fogo circular, o calibre .44 evoluiu ao longo dos anos na forma de mais de 25 tipos de cartuchos diferentes.
Hoje é comercializado em 3 configurações diferentes, conhecidas com os nomes de .44 Special, .44-40 WCF (Winchester Center Fire), e .44 Remington Magnum.
O .44 Special é uma evolução de um cartucho elaborado para utilização militar na Rússia. Com o advento da pólvora sem fumaça, tal cartucho cresceu comercialmente e hoje é utilizado em várias armas no mercado americano e europeu. Taurus e Rossi fabricam para exportação excelentes armas nesse calibre.
O 44-40 WCF, sendo um calibre originalmente lançado para ser utilizado em uma carabina (Winchester Modelo 1873), tornou-se popular inclusive no Brasil, onde o Comando do Exército autoriza a utilização desse calibre para armas longas. A Amadeo Rossi fabrica a carabina Puma, modelo Winchester, de ação por alavanca, enquanto que a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) produz o cartucho nesse calibre.
O .44 Remington Magnum é considerado calibre de uso RESTRITO no Brasil e não é aconselhável a sua utilização por principiantes. Com o precedente aberto pelo calibre .357 Magnum em relação ao .38 Special, Elmer Keith – atirador conhecido nos EUA – desenvolveu o .44 Magnum aumentando a cápsula do .44 Special em 1/8 de polegada, para impedir a utilização em armas que não fossem projetadas para o novo calibre, que trabalha com altas pressões (43.200 c.u.p.).
É hoje conhecido como “The Big .44” (“O Grande .44”), alcançando o status de ser a mais poderosa munição para caça e defesa, para armas curtas, no mundo. Apesar disso, não tem grande aceitação como arma de uso policial/defensivo devido ao fato de os revólveres que a calçam serem extremamente grandes, além do grande recuo do calibre, que torna praticamente impossível efetuar disparos rápidos e seguidos com bom aproveitamento.
Esportivamente, é utilizado em revólveres e pistolas de tiro único para a modalidade de silhuetas metálicas.

Calibre Peso Velocidade Observação
.44 Special 246 grains 230 m/s Cano de 6”
.44-40 WCF 200 grains 362 m/s Cano de 24”
.44 Magnum 240 grains 536 m/s Cano de 20”


Calibre .45 ACP



Apesar de ser um cartucho com projétil e estojo muito largos, dificultando a utilização em armas compactas, é credenciado como uma das melhores munições para uso policial e defesa. Combina um projétil largo e pesado disparado a baixa velocidade, com um grande “stopping power”.
Seu desenvolvimento foi iniciado com a criação de aproximadamente 40 cartuchos diferentes. Em 1911, juntamente com a conhecida pistola Colt Modelo 1911, foi criado o calibre .45 ACP (Automatic Colt Pistol), por John M. Browning. Hoje é conhecido pelos atiradores como o calibre básico para quem está iniciando na recarga de cartuchos para armas semi-automáticas, tal a facilidade de combinação de insumos (pólvora, projétil etc.) e a incrível tolerância por parte dos mecanismos das pistolas na utilização de munição recarregada. O Brasil utilizou o calibre .45 ACP até 1972/1973 em suas Forças Armadas, substituindo-o pelo calibre 9 mm Luger.
Encontramos aficionados, nos meios civis e militares, pelo .45 e pelas armas que o utilizam (as “bocudas”, assim carinhosamente chamadas em referência ao largo calibre), que não abrem mão daquele diâmetro, mesmo com o lançamento de calibres mais modernos. É um calibre autorizado aos civis somente para competições de tiro prático (IPSC).


DIÂMETRO DO PROJÉTIL .450”/.452”
ESPOLETA LARGE PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 19.900 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 32,39 mm


Projétil Peso Velocidade
Ogival/FMJ 230 grains 255 m/s
Semi-Canto Vivo/FMJ 230 grains 226 m/s
Semi-Canto Vivo/chumbo 200 grains 279 m/s
Calibre .40 S&W

Seguindo uma tendência mundial de equipar as polícias com pistolas semi-automáticas e munições mais efetivas, diversas polícias brasileiras estão optando pelo calibre .40 S&W.
O calibre .40 S&W, ao contrário dos outros dois mais conhecidos calibres para armas semi-automáticas (9 mm Parabellum e .45 ACP), é um produto recentemente lançado no mercado, que reúne, proporcionalmente, as vantagens de ambos.
O calibre .40 S&W, lançado comercialmente em 1990, foi concebido a partir do cartucho calibre 10 mm Auto. Assim que este último calibre foi deixado de lado pelo FBI, a Smith & Wesson iniciou as pesquisas que resultaram no desenvolvimento do calibre .40.
O .40 S&W foi praticamente desenvolvido para atender às necessidades daquele órgão policial norte-americano, que pedia um cartucho com projétil de 180 “grains”, carga propelente menor que a apresentada pelo cartucho calibre 10 mm, sendo que este já apresentava o diâmetro considerado adequado (projétil com diâmetro de .400”). O comprimento total do cartucho deveria ser menor que o do 10 mm, com pressões de trabalho que pudessem ser suportadas por armas de dimensões semelhantes às do calibre 9 mm, além de ser demandado um desempenho que possibilitasse uma penetração de 12 polegadas em gelatina balística, após atravessar um obstáculo fino de vidro ou madeira. Tudo isso mantendo as características de transferência de energia ao alvo, mesmo sendo o projétil totalmente encamisado.
Vemos então que as pesquisas derivaram de especificações técnicas exigidas por uma polícia, para a criação de um cartucho, que seria utilizado por ela. O que foi criado teve aceitação tão grande que hoje existe um “fenômeno .40” na Europa e nos EUA, com a adoção deste calibre para uso policial, para defesa e também para uso esportivo. Considerado calibre maior, é largamente utilizado em provas de IPSC (Tiro de Combate) com excelentes resultados.
Estatísticas norte-americanas apontam o calibre .40 S&W como uma das mais efetivas munições para defesa, com o seu “stopping power” chegando a 96%, (superando o calibre .45, historicamente conhecido como mais eficaz) conforme tabela elaborada por Evan P. Marshall, atirador e pesquisador. Este percentual somente é alcançado por uma marca específica de fabricação norte-americana. Como não dispomos de tal munição, lançamos mão de cartuchos fabricados pela indústria nacional, que apresentam desempenho semelhante à média dos concorrentes internacionais.
Além disso, o calibre .40 S&W assemelha-se ao .45 quanto à sua operação na arma, sem falhas significativas, ao contrário do 9 mm Luger, que é naturalmente mais seletivo quanto à configuração dos itens utilizados na sua carga ou recarga. Cabe citar aqui que uma comparação entre os calibres 9 mm, .40 S&W e .45 ACP é natural, pois a competição entre o 9 mm e o .45 já é histórica, quanto à eficiência no uso militar, policial e para a defesa do civil. O calibre .40 S&W veio somar-se à dupla, apesar de ser considerado como uma munição que ainda encontra-se na sua “infância”, em termos de mercado, pois foi lançada há pouco mais de dez anos.
A indústria de material bélico se esmera no aprimoramento de produtos para utilização deste calibre, com o cuidado de projetar armas mais robustas, com detalhes reforçados, tendo em vista que o calibre .40 S&W realiza uma enérgica operação de ferrolho (recuo do ferrolho, posterior ao disparo), causando fadiga mecânica na estrutura da arma.
Não podemos entender a criação do cartucho calibre .40 S&W como sendo o modelo definitivo, a exemplo do 10 mm Auto, que na década de 80 era considerado como o calibre do futuro, mas que teve pouca expressão no mercado, após o seu lançamento. Devemos, sim, observar as suas características mais adequadas à função policial e defesa, tendo em vista que é uma munição idealizada pela polícia para ser utilizada por ela.

DIÂMETRO DO PROJÉTIL .400”/.401”
ESPOLETA SMALL PISTOL
PRESSÃO MÁXIMA DE TRABALHO 35.700 c.u.p.
COMPRIMENTO MÁXIMO DO CARTUCHO 28,83 mm


PROJÉTIL PESO VELOCIDADE
SEPO/BP 180 grains 302 m/s

SEPO/BP =Projétil semi-encamisado, ponta oca, de base plana.

Calibres especiais

Existem pistolas semi-automáticas que disparam calibres típicos de revólveres ou outros calibres ainda mais incomuns. São os casos da Desert Eagle (calibres .357 Magnum, .41 Magnum, .44 Magnum e .50 Action Express), da Coonan (calibre .357 Magnum) e da Wildey (calibre .475), além de outras.
Existem também alguns calibres desenvolvidos especialmente para revólveres, objetivando a caça de animais de grande porte, como o .454 Casull. São armas de tamanho descomunal, grandes e poderosas em excesso, que por isso são desaconselháveis ao uso policial/defensivo, sendo mais usadas nos filmes de Hollywood.

7-) “STOPPING POWER” – PODER DE PARADA E INCAPACITAÇÃO

Anteriormente, ao estudarmos a Balística Terminal, tivemos contato com um importante conceito na avaliação dos efeitos dos projéteis de arma de fogo em alvo humano, qual seja o conceito de poder de parada ou incapacitação – o “Stopping Power” dos norte-americanos.
Neste tópico, inteiramente dedicado a este tema, iremos além daqueles princípios já abordados sobre o assunto, o qual, apenas recentemente, passou a ser alvo de estudos e a ser levado em conta quando da criação de novos calibres para fins defensivos e policiais.
Até o final do século XIX, quando se desejava um aumento no poder de incapacitação de um projétil de arma de fogo, era necessário aumentar o peso deste projétil e a quantidade da carga de propelente. Como a pólvora empregada era a pólvora negra, de baixo conteúdo energético e baixas pressões geradas com sua queima, a variável incapacitação imediata não era levada em conta. Os projetistas de armas e munições se preocupavam apenas em construir conjuntos arma/munição precisos e confiáveis, sem se preocuparem muito com a qualidade dos efeitos lesivos causados no alvo.
Com a descoberta da pólvora sem fumaça, foi possível aumentar o alcance e a precisão dos projéteis, com a redução de peso dos mesmos, permitindo a construção de armas menores e mais potentes. Isto causou a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre as munições e seus componentes, de modo a permitir uma maior eficácia desses conjuntos, em situação de combate.
Origem e evolução do conceito de poder de parada

O termo “Stopping Power” teve origem no final do século XIX, para expressar a capacidade de um determinado projétil em neutralizar um agressor, pondo-o fora de combate, sem necessariamente matá-lo.
A questão do poder de parada foi analisada seriamente pelo Exército norte-americano a partir de 1889, por ocasião das batalhas que ocorreram nas Filipinas, contra os Moros, onde se observou a inadequação do calibre regulamentar então utilizado, o .38 Long Colt, que não era suficientemente potente para tirar de ação aqueles oponentes. Os nativos recebiam vários disparos antes de cessarem a agressão contra os soldados americanos.
Problema semelhante enfrentaram os ingleses, em suas campanhas na Índia, no século passado. Os indianos eram oponentes muito resistentes, que continuavam a atacar os soldados ingleses mesmo após serem atingidos por inúmeros disparos. Visando solucionar o problema, os ingleses idealizaram uma munição para armas longas, no arsenal da província de “Dum-Dum”. O objetivo desta munição era justamente ampliar o poder destrutivo em tecido humano. Alguns autores afirmam que os testes com o chamado conceito Dum-Dum deram origem aos projéteis encamisados. Foram experimentados projéteis com corte em cruz, secionados e com diversos tipos de pontas, inclusive, primitivas “hollow point” (ponta-oca).
Em 1903, os EUA formaram uma comissão para estudar o problema da neutralização de oponentes com compleição física avantajada, e assim diminuir as baixas no seu Exército. Os resultados dos estudos dessa comissão influenciaram os EUA na adoção do calibre .45 ACP como de dotação regulamentar para armas curtas militares. Esta comissão ficou conhecida como “comissão Thompson – La Garde”, devido ao nome de dois de seus mais importantes membros.
Foram testadas munições de uso militar em bovinos vivos e em cadáveres humanos, registrando-se os efeitos observados. Nos cadáveres, suspensos no ar, era observada a capacidade de um projétil de fraturar ossos e de transferir energia, mostrada pela oscilação dos corpos pendentes. Nos animais, pretendiam ver o poder de incapacitação proporcionado pelos diferentes calibres.
Ainda não havia os modernos projéteis de ponta oca, e a comissão utilizou os de chumbo puro ou jaquetados. Os calibres e formas de projéteis foram os militares disponíveis na época, isto é, ogivais. Os resultados foram inconclusivos, mas pareceu que os calibres maiores e mais pesados eram superiores aos mais leves e mais rápidos.
Desse trabalho nasceu a teoria da relação calibre/momento, que é a base das teorias que vieram depois.
Em 1930, Chalberlin, um coronel americano, conduziu um estudo com cabras, escolhidas porque os ossos das cabras têm a mesma constituição mineral dos ossos humanos. Foram usadas armas longas com velocidades dos projéteis elevada. Entretanto, como os animais estavam anestesiados, não houve a possibilidade de se estudar a incapacitação.
Mesmo assim, algumas conclusões importantes foram obtidas: a lesão interna aumenta quando o projétil não segue de modo retilíneo, mas tomba e rola nos tecidos, aumentando a cavidade temporária; projéteis secundários (na verdade, estilhaços de ossos), provocados por ossos fragmentados, por exemplo, podem causar destruição distante do trajeto do projétil; o movimento dos líquidos dos tecidos causa danos em todas as direções, além daquela da trajetória do projétil. Chalberlin deu importância à reação hidráulica dos líquidos dos tecidos animais, e seu efeito sobre o sistema nervoso central.
Também nos EUA, no final dos anos 20, o General Julian S. Hatcher realizou estudos baseados nos resultados da comissão Thompson – La Garde, concluindo, à época, que a ocorrência do “Stopping Power” estava relacionada ao momento (instante em que o projétil choca-se com o alvo [momento é um conceito da física, que é, segundo o Dicionário Aurélio, o produto da massa pela velocidade]), e afirmando que um projétil lento e pesado teria maiores chances de causar o fenômeno da incapacitação imediata do que um mais leve e veloz. Hatcher apresenta, inclusive, uma fórmula para cálculo comparativo da eficiência de projéteis.
Os resultados, até aqui, mostravam-se inconclusivos e baseados mais nas experiências do que em raciocínios realmente científicos.
Outro americano que realizou estudos referentes ao poder de incapacitação de projéteis de armas de fogo foi um médico militar, o Dr. Flacker, especialista em ferimentos por bala, que estudou longamente as necropsias de pessoas atingidas por projéteis de armas de fogo.
Como o trajeto de um projétil pelo corpo humano deixa a cavidade permanente causada pela lesão de sua passagem, lesão esta que pode ser vista no ato da necropsia, esse pesquisador valorizou esta cavidade como causa da incapacitação do agressor, e concluiu que os projéteis mais pesados têm uma penetração maior, e, portanto, deixam maior lesão nos tecidos. Entretanto, além dessa cavidade permanente, os estudos atuais mostram que há a cavidade temporária simplesmente desconsiderada por Flacker por ocasião de seus estudos.
Há, ainda, um outro trabalho, executado por um policial norte-americano, Fairburn, que estudou os resultados também reais de registros policiais. O número de casos estudados foi pequeno, o que não permitiu ao pesquisador separar as diferentes munições dentro de um mesmo calibre. Mesmo assim, suas conclusões mais importantes são, por exemplo, que o calibre de maior poder de parada é o .357 Magnum, que o melhor projétil em calibre .38 é o de 158 grains de peso, ponta oca, semi canto vivo + P, e que o calibre .38 SPL não é efetivo, parando uma agressão apenas uma vez a cada quatro casos.
Mais recentemente, em 1991, foi realizado um estudo em Strassbourg, na França, onde um grupo de pesquisadores, que incluía médicos, fisiologistas, neurologistas, veterinários, patologistas e especialistas em balística, analisou vários calibres, desde o .380 ACP até o .44 Magnum, cada qual em diferentes configurações. Como alvos, utilizaram cabras vivas, de tamanho padronizado, em virtude de ter esse animal o tórax aproximadamente do mesmo porte do tórax humano.
Cada animal foi deixado em uma cela, com água à disposição, sendo alvejado, a partir de uma máquina de tiro, sempre no mesmo ponto, atingindo o pulmão em uma posição alta que impedia que o projétil atingisse o coração ou um grande vaso sangüíneo. O objetivo era estudar o poder de parada, através do desfalecimento do animal atingido. Cada animal foi monitorado quanto ao eletroencefalograma e à pressão arterial. Foi medido o tempo decorrido desde o disparo até a incapacitação do animal (tempo médio de incapacitação total).
Depois de incapacitados (não necessariamente mortos) os animais eram abatidos e necropsiados e, em caso de haver doenças ou estilhaços de ossos ou de balas terem acertado o coração ou um grande vaso, esses casos eram eliminados da estatística. Foi buscado apenas o resultado de um tiro capaz de incapacitar o animal por efeito exclusivo da trajetória do projétil através dos tecidos.
Os resultados, mostrados em resumo geral na tabela a seguir, expressos em tempo médio de incapacitação, confirmam plenamente o que Marshall e Sanow, dois outros pesquisadores, apresentariam anos depois em seu trabalho. Os menores tempos de incapacitação foram dos calibres .357 Magnum (o mais rápido), o .40, o .45 e os projéteis mais leves em calibre 9 mm. O projétil 9 mm mais pesado (147 grains), foi muito inferior. Outro resultado digno de nota é o que foi obtido com arma curta, de duas polegadas de cano e em calibre .38 SPL, ponta de chumbo ogival, que não incapacitou a cabra alvejada, mostrando-se ineficiente para a obtenção do Stopping Power.

Calibre e Munição empregados Tempo médio de incapacitação (min)
.357 Mag 125 grains JHP 7,34
.40 S&W 155 grains JHP 7,86
.45 ACP 230 grains Hidra-Shock 8,40
.40 S&W 180 grains Black Talon 8,86
9mm Para 115 grains Starfire +P 9,02
.38 SPL 158 grains LHP +P 10,76
.380 ACP 90 grains Hidra-Shock 10,94
.45 ACP 230 grains FMJ 13,84
9mm Para 115 grains FMJ 14,40
.380 ACP 95 grains FMJ 22,80
.38 SPL 158 grains RNL 33,68

Pelos resultados desta pesquisa, podemos verificar que o calibre .40 S&W tem um desempenho excelente, superior a qualquer coisa alcançada pelos calibres permitidos no Brasil (.38 SPL e .380 ACP) e até por algumas munições 9 mm Para e .45 ACP. Mais uma prova de que se trata de um excelente calibre para defesa.
No Brasil, alguns autores se valeram da experiência norte-americana e desenvolveram testes próprios para a obtenção de um índice de poder de parada. O Campo de Provas de Marambaia, no Rio de Janeiro, estabelecimento de testes do Ministério do Exército, em 1982, fixou o valor de 13,6 Quilogrâmetros (kgm) como sendo a energia capaz de deter um homem, por ação do impacto, mesmo não o atingindo em um ponto vital. Os estudos nacionais também ressaltaram a importância da forma do projétil, em especial de sua ponta, como fator de aumento do poder de parada de determinado tipo de munição.
Stopping Power: Estudos Atuais

Observa-se que um grupo de estudiosos atribui mais importância à penetração dos projéteis, enquanto outro julga que a velocidade dos mesmos é mais importante. São duas correntes que já vinham mantendo grandes e intermináveis discussões, que ficaram mais intensas após o lançamento do livro “Handgun Stopping Power – A definitive study” escrito por Evan Marshall, um ex-policial e Edwin Sanow, policial em atividade. Esses autores realizaram o maior estudo até hoje procedido sobre o tema, que durou cerca de quinze anos, onde foram colhidas informações de tiroteios entre policiais e meliantes ou entre civis atacados por marginais, relacionando os casos em que um tiro acertado interrompeu uma agressão de imediato.
Marshall e Sanow viajaram por todos os Estados Unidos e por alguns países da Europa, buscando subsídios – inclusive nos resultados das necropsias – para sua pesquisa. O resultado desses estudos foi o referido livro, que analisa, calibre por calibre, o desempenho das diferentes munições, relacionado com o peso do projétil e com sua forma.
A análise de casos reais, e não apenas o raciocínio teórico, mostrou que os projéteis mais leves, portanto com maior velocidade, e a configuração desses projéteis, essencialmente, em pontas ocas, têm melhor desempenho de poder de parada.
Marshall e Sanow atribuem um índice de incapacitação baseado nas estatísticas dos casos reais observados. Se, estatisticamente, temos o relato de 100 casos de disparos com determinado calibre e em 50 casos o atacante foi posto fora de combate com um único tiro, o poder de parada desse projétil será de 50%.
O trabalho mostrou que os projéteis leves e mais velozes têm um poder de parada maior do que os mais pesados, mesmo quando esses têm a mesma configuração (ponta oca, por exemplo).
As conclusões desses autores geraram mais polêmica, sendo recebidas com descrédito pelos que se baseavam nos estudos anteriores, que projéteis mais pesados, viajando a velocidades menores, possuem maior penetração, e, portanto, poderão causar maiores danos nos tecidos humanos atingidos, possuindo maior poder de parada.
A tabela a seguir, retirada do trabalho de Evan Marshall, ilustra a relação de efetividade, em casos reais de confronto armado nos Estados Unidos, entre diferentes calibres de uso defensivo/policial. Destaca-se a eficiência do calibre .357 Magnum, um dos mais efetivos já criados, e que continua a ser uma excelente opção, não obstante a atual tendência no uso de calibres de pistolas semi-automáticas. Conforme já apontamos, o .357 Magnum é calibre típico de revólver.

Calibre e Munição Porcentagem de Parada
.357 Mag 125 grains JHP 96%
.40 S&W 135 grains COR-BON 96%
.40 S&W 155 grains STHP 93%
.45 ACP 230 grains Hidra Shock 88%
.44 Mag 210 grains STHP 88%
.41 Mag 170 grains STHP 88%
9 mm Para 115 grains STHP + P 79%
.44 SPL 200 grains STHP 72%
.38 SPL 158 grains LHP + P 72%
.45 ACP 230 grains FMJ 60%
.380 ACP 85 grains STHP 54%
.38 SPL 158 grains RNL 52%

Como resultado deste estudo, os autores afirmam que não há uma munição mágica, que garanta 100% de poder de parada. Todos os trabalhos asseveram que o fator mais importante para aumentar as chances de parar um agressor é a colocação correta do tiro em seu corpo. O local atingido, na maior parte das vezes, é mais importante do que o calibre utilizado.
Outro fator apresentado nos estudos de Marshall e Sanow é a questão da penetração do projétil em alvo humano. Um projétil com pouca penetração poderá não atingir a zona vital para a ocorrência da incapacitação imediata, detendo-se em roupas grossas ou mesmo em ossos e outros obstáculos. Em compensação, um projétil com alta penetração poderá transfixar o corpo do agressor, e atingir um passante não envolvido no confronto.
Estabeleceu-se como padrão ideal de penetração a profundidade de 10 a 12 polegadas em corpo humano (cerca de um palmo). O projétil, preferencialmente, não deverá transfixar o alvo, e sim, deter-se nele para uma eficiente transmissão de toda a sua energia cinética.

Como funciona o mecanismo da incapacitação imediata
Mas afinal, como ocorrem os fenômenos orgânicos que possibilitam a obtenção da incapacitação imediata?
Quando um projétil de arma de fogo atinge o cérebro ou o tronco cerebral e destrói estruturas responsáveis pela consciência ou pelo tônus muscular dos músculos que mantém o corpo ereto, ou quando o tiro atinge a medula espinhal e interrompe o comando nervoso das pernas ou mesmo dos braços e das pernas, dependendo da altura da medula atingida, ou, ainda, em algumas pessoas, quando atingido um vaso calibroso importante, provocando o chamado choque hipovolêmico, ou seja, a rápida perda de grande quantidade de sangue, há grande probabilidade de que ele cesse imediatamente suas ações. Nesses casos, o agressor deve cair instantaneamente.
A questão do choque hipovolêmico é um tanto controversa, pois pode levar algum tempo, entre o atingir do projétil e a interrupção das funções motoras do oponente: o agressor pode seguir em ação por tempo suficiente para concretizar o ato agressivo. Mesmo com o coração ou a aorta, por exemplo, seriamente comprometidos, um indivíduo pode não cair instantaneamente. Somente há parada instantânea em cem por cento dos casos (ou o mais próximo deste valor) quando aquelas estruturas nervosas mencionadas – cérebro e medula – são atingidas.
Um outro mecanismo, chamado de choque neurogênico é citado por médicos especialistas como sendo um dos responsáveis pela queda imediata de um oponente.
Sua ocorrência é fácil de ser observada, por exemplo, nas lutas de boxe ou de vale-tudo, onde um lutador é posto fora de combate por um soco ou pontapé na altura do fígado, na ponta do queixo ou no lado da cabeça. Esse desfalecimento pode se dar por alguns minutos ou mesmo por alguns segundos, seguido por uma sensação de desorientação e de dificuldade em manter o equilíbrio.
Isso ocorre porque o golpe atingiu áreas do corpo, embora superficialmente, que transmitem impulsos nervosos ao sistema nervoso central e que chegam à áreas que governam a consciência e o tônus dos músculos antigravitacionais das pernas, os extensores, músculos que permitem ao corpo se manter em pé.
Não se sabe com certeza, mas este pode ser o mecanismo que faz com que uma pessoa atingida por um projétil em área não vital, desfaleça imediatamente. A cavidade temporária parece ser a responsável pela ocorrência deste choque e pela perda da consciência.
Segundo os médicos, estruturas como vísceras e ramificações nervosas podem, se atingidas, provocar o fenômeno. A zona do corpo humano limitada pela bacia pélvica, por onde transitam nervos importantes para a sustentação das pernas e pela proximidade de plexos nervosos, como o plexo solar, é um local de alta ocorrência do choque neurogênico.
O fenômeno, entretanto, é menos observado em indivíduos sob efeito de drogas.
O atirador conta com três possibilidades principais de parar um agressor instantaneamente: um tiro que atinja a cabeça e acerte principalmente a estrutura do tronco cerebral; um tiro que secione a medula espinhal; e o tiro com um projétil de alta velocidade, que gere uma cavidade temporária capaz de produzir o citado choque neurogênico.
Assim, a maior certeza de parar imediatamente um agressor é acertá-lo com disparos múltiplos, uma vez que os estímulos gerados por várias cavidades temporárias se somam, e resultam em um poder de parada muito maior.
Podemos contar também com a incapacitação mecânica do agressor, se nosso projétil atingir algum osso como o fêmur. Neste caso, o agressor irá cair instantaneamente, tanto por problemas mecânicos como por reflexo pela dor. Entretanto, permanecerá no domínio de seus movimentos com as mãos, e se estiver armado com uma arma de fogo, poderá seguir atirando, pois não terá perdido os sentidos.
Armas, munições e poder de parada

Dos trabalhos de Marshall e Sanow podemos tirar várias conclusões acerca do poder de incapacitação de um determinado conjunto arma/munição.
Considerando que o critério adotado na pesquisa era o de considerar somente os casos em que era empregado um único tiro que atingisse a região do tronco do atacante/vítima, descartando-se os múltiplos ferimentos, tiros em membros ou na cabeça, Marshall definiu incapacitação da seguinte maneira (para os fins da pesquisa): se a vítima, quando atingida, entra em colapso antes de fazer algum disparo ou expressar uma outra reação de ataque ou fuga; a vítima/oponente, quando atingido, não poderia se deslocar mais do que três metros antes de entrar em colapso.
Os estudos concluíram também que, tão importante quanto a arma e o calibre utilizados, o ponto atingido no alvo e a possibilidade múltiplos disparos garantem a ocorrência do stopping power. A melhor munição do mundo de nada servirá se o usuário errar o tiro ou não conseguir repeti-lo dado o excessivo recuo da arma.
Outra condicionante na obtenção do stopping power é a expansão do projétil, que, necessariamente, deverá ocorrer. Armas curtas costumam apresentar problemas na expansão de projéteis tipo ponta oca. Atingir altas velocidades em um cano de arma longa é relativamente simples, mas para que isto ocorra em projéteis disparados de armas curtas, é necessário um projétil especialmente construído para este fim.
Esse fato ficou comprovado nos trabalhos apresentados, onde os maiores índices de incapacitação ocorreram com a utilização de projéteis especiais.
A munição mais efetiva mostrou ser a .357 Magnum, com índices superiores a 96%. O .38 SPL, veterano conhecido, só é eficiente quando utilizado em versões + P de ponta oca, e em armas de 4” de cano.
A seguir apresentamos uma tabela onde constam os calibres mais comuns utilizados com propósitos defensivos/policiais, e seus respectivos índices de incapacitação.

TABELA DE MARSHALL E SANOW

Quadro de Eficiência Real de Munições


Calibre Marca de Munição e Peso do Projétil (em grains) Tipo de Projétil Número de casos analisados Número de casos em que houve a incapacitação imediata Percentual de eficiência (Stopping Power)
.32 ACP W-W 60 STHP 71 43 60,56
W-W 71 FMJ 98 49 50,00
.380 ACP Federal 90 JHP 106 69 65,09
W-W 85 STHP 59 32 54,23
R-P 88 JHP 37 20 54,05
Federal 95 FMJ 87 45 51,74
.38 SPL W-W 158 LHP + P 75 50 66,66
(2” de cano) Federal 158 LHP + P 38 25 65,78
Federal 125 JHP + P 45 28 62,22
Federal 158 SWC 89 44 49,43
Federal 158 RN 206 101 49,02
.38 SPL W-W 158 LHP + P 222 167 75,22
(4” de cano) Federal 158 LHP + P 163 116 71,16
Federal 125 JHP + P 183 126 68,85
Federal 158 SWC 174 92 52,87
Federal 158 RN 306 160 52,28
9 mm Federal 155 JHP + P + 76 68 89,47
Parabellum Federal 124 Nyclad 185 150 81,08
W-W 115 FMJ 159 99 62,26
.357 Federal JHP 462 448 96,96
Magnum R-P S-JHP 27 22 81,48
R-P JSP 23 17 73,39
Federal JHP 63 57 90,47
.44 W-W 210 STHP 38 34 89,47
Magnum Federal 180 JHP 23 20 86,95
W-W 240 SWC 44 36 81,81
.40 S&W Federal 155 JHP 34 32 94
Winchester 155 Silvertip 22 20 91
Federal 155 Hydra Shock 38 34 89
.45 ACP Federal 230 Hydra Shock 53 48 90,56
Federal 185 JHP 96 83 86,45
W-W 230 FMJ 139 89 64,02

Convenções:

W-W – Winchester Western; R-P – Remington Peters; STHP – Encamisada prateada ponta oca; LHP – Chumbo, ponta oca; JHP – Jaquetado, ponta oca; S-JHP – Semi jaquetado ponta oca; FMJ – Totalmente encamisado; SWC – Semi canto vivo; RN – chumbo ogival.

Mais uma vez, podemos constatar a eficiência do calibre .40 S&W, com índice de parada da ordem de 90%, muito superior, por exemplo, ao .380 ACP (calibre de pistola mais potente permitido no Brasil) que tem índice em torno de 60%.


Conclusões sobre o poder de parada

Finalizando este tópico, relembramos que o chamado stopping power é um fenômeno relativo, que não pode ser calculado com uma certeza matemática (apesar das várias fórmulas para seu cálculo apresentadas por diversos estudiosos do assunto), pois depende de muitas variáveis, entre elas, a individualidade biológica do oponente.
Em situação policial/defensiva, é necessário que a escolha do conjunto arma/munição para porte recaia sobre aquele que possua um elevado índice de incapacitação, índice esse obtido nos trabalhos sérios a respeito do tema, entre os quais se sobressai o estudo de Marshall e Sanow.
Um exemplo de que o poder de parada é um valor relativo, e de que o armamento para uso policial/defensivo deve ser o mais eficiente possível, é o do famoso “tiroteio de Miami”, citado por diversos autores especializados no assunto. Esse incidente aconteceu em Abril de 1986, em Miami, na Flórida (EUA), quando dois marginais armados, cada um com um revólver .357 Magnum, um com uma espingarda calibre 12 e o outro com um rifle, foram perseguidos por 8 agentes do FBI. A perseguição terminou com a colisão de vários veículos, dentre os quais o dos meliantes, o que possibilitou que os agentes os interceptassem. Alguns agentes do FBI, segundo afirmam os especialistas, traziam seus revólveres sobre o banco do carro, de modo a poderem empunhá-los mais rapidamente. Com o choque das viaturas, as armas que estavam sobre os bancos foram jogadas longe, e muito tempo foi perdido para apanhá-las.
Testemunhas afirmaram que foram disparados um total de 140 tiros em apenas quatro minutos.As armas de coldre dos agentes eram revólveres .357 Magnum (5 deles) e pistolas 9 mm Parabellum (3 deles). Entre as falhas apontadas no incidente está o fato de os revólveres estarem sendo usados com munição .38 SPL, 158 grains SWC HP, de chumbo, e não com a munição .357 Magnum.
Apenas dois dos agentes portavam uma backup gun (arma reserva), mesmo assim, também no calibre .38 SPL. Com a enorme quantidade de tiros disparados, vários dos agentes ficaram sem munição, sendo feridos ou mortos no ato de tentarem remuniciar suas armas.
Os dois marginais foram mortos durante a ocorrência. Um deles, armado com um rifle Ruger Mini-14, estava mortalmente ferido, com um projétil 9 mm Parabellum Silvertip 115 grains colocado a menos de meia polegada do coração, tendo sido atingida a sua artéria pulmonar. Mesmo ferido, continuou disparando seu rifle, matando e ferindo vários agentes.
Finalizado o tiroteio, restaram dois agentes mortos e seis feridos, dois dos quais ficaram neurologicamente incapacitados. O FBI atribuiu a culpa do fracasso da operação ao projétil utilizado, o 115 grains 9 mm Silvertip, que não chegou até o coração dos oponentes, nos tiros que penetraram lateralmente o tórax, depois de atingir o braço. Foi dito que a munição, se tivesse maior penetração, poderia ter incapacitado os agressores.
A condenação da munição foi um pretexto para desviar a atenção da verdadeira causa do fracasso: a falta de uma tática adequada, a ineficiência dos policiais em acertarem seus oponentes e a munição inadequada dos revólveres. A munição acusada foi o “bode expiatório”, e o FBI passou a usar uma munição com projétil mais pesado e de maior penetração (de 147 grains, 9 mm, ainda em configuração Silvertip).
Esse fato lamentável na história da polícia norte-americana, entretanto, proporcionou alguns ensinamentos. A partir do incidente, o FBI iniciou um estudo sério, investigando vários calibres, nas mais diferentes situações de tiro, inclusive contra barricadas e obstáculos que possam se interpor entre os policiais e seus oponentes.
Os resultados foram publicados em um livro e o FBI optou por utilizar uma nova munição recém lançada, o 10 mm, em pistolas de grande porte, conforme relatado anteriormente. Entretanto, o calibre 10 mm, como se viu, mostrou-se exageradamente potente, com hiperpenetração e com recuo muito forte, além de as pistolas do calibre serem muito grandes para serem portadas diuturnamente.
Como resultado do fracasso inicial do calibre 10 mm, houve a tentativa de diminuir-se a potência sem alterar o diâmetro do projétil, mas de forma a diminuir, também, o tamanho das armas.
Dessas tentativas surgiu o calibre .40, um 10 mm mais curto, denominado .40 Smith & Wesson. A vantagem do calibre .40 S&W é que pode ser usado em armas de menor tamanho, praticamente as mesmas pistolas que antes serviam ao calibre 9 mm em uso no FBI.
Em pouco tempo o calibre .40 tornou-se o mais procurado pelas agências policiais norte-americanas e adotado por uma grande parte delas. Hoje é o calibre mais popular e talvez o mais respeitado, aproximando-se em balística do .357 Magnum. Tudo como já informado alhures.
Os marginais baleados no confronto de Miami deram ao mundo importantes ensinamentos com relação aos efeitos da adrenalina no corpo de um homem sob grande tensão e perigo de vida iminente. Mesmo baleados mais de uma vez e sangrando por artérias calibrosas, prosseguiram contra os policiais, matando alguns e ferindo muitos, antes de tombarem. Em condições normais, um homem baleado como foram aqueles, não teria sido capaz de prosseguir atirando. Tal fato foi atribuído a possíveis drogas que pudessem ter sido consumidas antes da ocorrência. Mas os exames posteriores comprovaram que os marginais não possuíam nenhuma substância estranha no sangue.
Inúmeros outros casos poderiam ser citados, mas acreditamos já ter sido suficiente o exemplo aqui dado. Esperamos não ter de passar pela mesma experiência daqueles agentes, buscando aprender as lições que o fato já ensinou.
Por fim, afirmamos que é essencial para a obtenção do fenômeno do stopping power, além dos fatores já vistos anteriormente, um conjunto arma/munição preciso e eficiente, o tipo (configuração) da munição empregada, o local atingido no corpo do oponente, múltiplos disparos nas zonas atingidas (salienta-se a importância do segundo tiro), penetração suficiente do projétil (10 a 15 polegadas) e uma grande cavidade temporária provocada pelo impacto do projétil.


8-) CONSIDERAÇÕES SOBRE LEGÍTIMA DEFESA


Uma das situações mais difíceis de nossa atividade, no que se refere ao uso de armas de fogo, é a decisão de atirar. A decisão de tiro é um dos princípios do tiro policial: o Auditor-Fiscal deve ter condições de decidir, com base na lei, o momento correto de utilizar a arma.
É necessário que se tenha em mente o motivo pelo qual um Auditor-Fiscal porta uma arma de fogo, capaz de tirar vidas. Sua intenção, carregando consigo tal instrumento, não é a de agredir ou a de matar alguém, mas a de fazer cessar, em determinadas circunstâncias, o risco à vida, sua ou de terceiros. O Auditor-Fiscal deve usar uma arma para incapacitar um agressor e nunca com a intenção de matar. O objetivo é sempre o de fazer cessar aquele risco.
Não obstante todo o planejamento de uma operação, precipitada a situação de enfrentamento, antes de envolver-se diretamente no confronto armado, ou numa situação de alto risco, o Auditor-Fiscal deve proteger-se, observar e estar em condições de tiro. Estes três momentos distintos, entretanto, podem manifestar-se num espaço de tempo muito pequeno, devido às condições de combate.
Além de proteger-se, observar e estar em condições de atirar, o Auditor-Fiscal deve fazer para si mesmo três questionamentos básicos, antes de, efetivamente, fazer uso da arma de fogo: primeiro deve perguntar-se se o agressor tem habilidade em causar morte ou grave lesão corporal a ele ou a terceiros; sendo positiva a avaliação, verificar se o agressor tem a oportunidade de utilizar esta habilidade para causar a morte ou a lesão ao Auditor-Fiscal ou a terceiros; uma vez determinado que o agressor tem a habilidade e a oportunidade, se sua ação realmente colocará em perigo de vida ou de grave lesão corporal o Auditor-Fiscal ou terceiros. Se a resposta a uma destas três perguntas – habilidade, oportunidade e perigo – for não, provavelmente o Auditor-Fiscal não estará justificado para acionar a arma de fogo.
A legislação penal brasileira reconhece o direito de defesa, de modo a interromper ou impedir a ação agressiva, desde que os meios dos quais lancemos mão sejam exercidos de modo moderado. A lei não nos autoriza a matar para nos defendermos. Isto é tanto válido para o civil, para o policial, como para o Auditor-Fiscal.
A morte do agressor poderá ocorrer por azar, sem que sejamos autorizados a reagir com a intenção de matar. Se nos defendermos com uma arma de fogo sem a intenção de matar, a morte poderá ocorrer dependendo das estruturas orgânicas que forem atingidas pelos tiros disparados. Se for clara a falta de intenção de matar, a morte do agressor deverá ser escusada.
Com relação às situações em que alguém pode cometer um crime, em tese, sem que sobre ele recaia o juízo de condenação, estas são especificadas pela lei penal brasileira. O Código Penal refere-se às excludentes de ilicitude, como o estado de necessidade, a legítima defesa, o exercício regular de direito e o estrito cumprimento do dever legal. Destes, o que mais nos interessa é a legítima defesa, pois, na maior parte das vezes, é nesta excludente que irá se basear a defesa do Auditor-Fiscal que porventura fere gravemente ou mata um agressor.
Sem querermos adentrar na seara do Direito Penal, mencionaremos aquilo que diz respeito à decisão de o Auditor-Fiscal lançar mão ou não de sua arma de fogo.
A lei penal brasileira entende em legítima defesa quem, empregando moderadamente meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, contra um bem jurídico próprio ou alheio.
São, portanto, requisitos da legítima defesa, a agressão atual ou iminente, e injusta, o direito próprio ou alheio e a moderação no emprego dos meios necessários.
Entretanto, moderação não quer dizer que o Auditor-Fiscal deva atirar apenas uma vez. Se a lei faculta o direito de defesa para interromper a agressão, poderá atirar até que o agressor seja contido em sua ação. O excesso se caracterizará se atirar no agressor já desfalecido, quando não há mais o risco aos bens jurídicos vida e integridade física, dos ofendidos.
O uso da arma de fogo se dará, portanto, em legítima defesa, visando exclusivamente parar a agressão, pela incapacitação ou fuga do agressor.
Esta incapacitação poderá ser pela perda dos sentidos, por incapacidade locomotora, pela morte, ou pela fuga do agressor diante da atitude do Auditor-Fiscal.
O uso correto dos meios de que dispõe o Auditor-Fiscal para fazer frente aos riscos pode fazer a diferença entre o uso legal e o ilegal do armamento. A arma de fogo, a princípio, é o último meio de que disporá o agente da Lei, utilizando-o apenas em situações limites em que houver a justificativa de seu emprego.


9-) CONSIDERAÇÕES FINAIS


No dia 28 de janeiro de 2003, por volta das 22 horas, no Posto da Polícia Rodoviária Federal de Barra Velha (SC), a equipe de serviço efetuou abordagem em um veículo Jeep Cherokee com 04 ocupantes. Após a fiscalização inicial, os ocupantes foram conduzidos para o interior do Posto para verificação e consulta de documentos pessoais e do veículo. No momento em que estavam dentro da edificação, um dos ocupantes tentou dominar o policial e sacar uma pistola .380 que estava dentro de sua calça (abdômen/região pélvica). O policial que estava do lado de fora, revistando o veículo, correu em auxílio, colocou-se próximo ao vidro, fez visada e disparou, acertando o indivíduo que estava tentando dominar o policial. Em ato contínuo, efetuou vários disparos nos outros três indivíduos. Na seqüência, outro ocupante também sacou uma pistola .380 de dentro da calça e tentou efetuar disparos. Da ação resultou a morte, no local, de dois abordados, tendo, mais um, morrido a caminho do hospital. O último ficou gravemente ferido com vários disparos de .40 (mais ou menos 6). Um dos policiais também ficou ferido, com dois tiros (perna e mão). (Carta enviada à redação da Revista Magnum pelo Policial Rodoviário Federal Sérgio Leonardo, lotado em Cascavel – PR)
Esse caso real é um exemplo da importância de se utilizar um calibre de elevado poder de parada para a defesa. No caso em tela, podemos ver que inicialmente havia uma vantagem numérica a favor dos meliantes, pois eram quatro deles para apenas dois policiais, sendo que um destes estava em vias de ser subjugado. O outro policial, corretamente abrigado e fazendo valer as técnicas aprendidas em seu treinamento de tiro, utilizou seu armamento para reverter a situação taticamente desfavorável, salvando a vida do colega e provavelmente a sua própria.
Embora o treinamento tenha sua parcela de contribuição no desfecho do episódio, é inegável que a utilização de armamento em calibre .40 S&W pelo PRF foi decisivo. Ao proporcionar a incapacitação imediata de dois ou talvez três dos oponentes, livrou os policiais de receberem retorno de fogo hostil que poderia ter vitimado os agentes da Lei. Qual poderia ser o final desta história se os mesmos estivessem portando revólveres em calibre .38 SPL com munição ogival padrão, com seu índice de “stopping power” ao redor de 50%? Destacamos que esse era o calibre/arma de dotação oficial pela PRF até meados dos anos 90.
Este é um dos episódios que atesta a correta decisão da maioria das polícias brasileiras em adotar o .40 S&W como calibre de dotação regulamentar (Anexo 1). E também mostra a vontade do Estado em melhor proteger os seus agentes encarregados de fazer cumprir as leis. Proteção esta que já foi corretamente estendida aos membros da Magistratura e do Ministério Público, através da Portaria n° 535, de 1° de Outubro de 2002. Agora esperamos que o Estado Brasileiro estenda aos Auditores-Fiscais da Receita Federal idêntico direito de portar armas neste calibre, proporcionando melhor defesa no exercício de suas funções fiscais e aduaneiras.
Gostaríamos de esclarecer que o Decreto n° 3665, de 20 de Novembro de 2000, que instituiu o Regulamento para Fiscalização de Produtos Controlados define, em seus artigos 15 e 16 os conceitos de armas de uso restrito, conforme transcrito a seguir:




Art.15. As armas, munições, acessórios e equipamentos são classificados, quanto ao uso, em:

I - de uso restrito;
II - de uso permitido.

Art. 16. São de uso restrito:

III - armas de fogo curtas, cuja munição comum tenha, na saída do cano, energia superior a trezentas libras-pé ou quatrocentos e sete Joules, e suas munições, como por exemplo, os calibres .357 Magnum, 9 mm Luger, .38 Super Auto, .40 S&W, .44 SPL, .44 Magnum, .45 Colt e .45 Auto. (grifo nosso)

Já em seu artigo 3°, a referida norma define, da seguinte forma, o conceito de arma de uso restrito:

Art. 3° Para os efeitos deste Regulamento e sua adequada aplicação, são adotadas as seguintes definições:

XVII – arma de uso permitido: arma cuja utilização é permitida a pessoas físicas em geral, bem como a pessoas jurídicas, de acordo com a legislação normativa do Exército;

XVIII – arma de uso restrito: arma que só pode ser utilizada pelas Forças Armadas, por algumas instituições de segurança, e por pessoas físicas e jurídicas habilitadas, devidamente autorizadas pelo Exército, de acordo com a legislação específica; (grifos nossos)


Da leitura dos artigos do supracitado Regulamento, entendemos ser legalmente possível a liberação do referido calibre aos AFRF, para isso bastando que seja editado, pelo Comando do Exército Brasileiro, a requerimento da Secretaria da Receita Federal, Portaria similar àquela que já concedeu referido direito aos membros da Magistratura e do Ministério Público.
Desta forma, e longe de querer elaborar um tratado sobre armas de fogo, esperamos ter contribuído para um melhor aprimoramento dos Auditores-Fiscais da Receita Federal no quesito armas de fogo, bem como ter propiciado elementos de natureza técnica que possibilitem à instituição atender ao justo pleito desta categoria funcional.


Os Autores

Junho de 2003